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quinta-feira, 26 de agosto de 2010

O Código da Aliança

Ele nos libertou do império das trevas e nos transportou para o reino do Filho do seu amor, no qual temos a redenção, a remissão dos pecados. (Cl 1:13-14)

Os eleitos, uma vez salvos pela graça e adotados, são inseridos, ou melhor, transportados do império das trevas para o Reino do Filho de Deus (Jesus). Este "transporte" tem implicações muito sérias, pois significa uma mudança de "realidade". Neste versículo, Paulo faz uso de uma linguagem de libertação, que remete a páscoa israelita [hb. pêssach - פסח], quando o povo israelita foi liberto do Egito e engajados em uma jornada para a liberdade (Êxodo).

De fato, o próprio termo hebraico para "páscoa" quer dizer "passagem", uma transição do estado de cativeiro e prisão, para o estado de liberdade. Neste sentido, Israel torna-se o povo de YHVH e este "tornar-se povo", implica um tipo adoção nacional ou uma relação de suserania e vassalagem.

Nos povos da antiguidade, quando um reino mais fraco era dominado por um reino mais forte, os cidadãos que se rendiam do reino dominado, eram absorvidos pelo reino suserano, tornando-se assim seus vassalos. Um "rei" ou "senhor" exigia, como um tipo de rito de absorção nacional, que os vassalos se comprometessem com o novo reino por meio de uma confissão pública dos decretos reais, firmando assim uma aliança com aquele rei, podendo estes decretos serem denominados de código da aliança.

Em uma lógica semelhante, Deus ao libertar o povo de Israel do Egito, os inseriu em seu reino, transformando-os em povo da aliança ou gente peculiar, ao menos esta é a linguagem que encontramos em Êxodo quando é dito:

Agora, pois, se diligentemente ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, então, sereis a minha propriedade peculiar dentre todos os povos; porque toda a terra é minha; vós me sereis reino de sacerdotes e nação santa. São estas as palavras que falarás aos filhos de Israel. (Ex 19:5-6)

Interessante que este quadro teológico de nova nacionalidade e adoção nacional é também usado pelo apóstolo João ao se referir à Igreja (Ap 1:6; 5:10) e pelo apóstolo Pedro quando escreveu em sua primeira carta:

Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz; vós, sim, que, antes, não éreis povo, mas, agora, sois povo de Deus, que não tínheis alcançado misericórdia, mas, agora, alcançastes misericórdia. (I Pe 2:9-10).

As palavra de Pedro remetem ao êxodo, uma linguagem do imaginário judaico da relação exílio-libertação. A teologia petrina é que a Igreja é composta por um "povo" que se tornou "povo de Deus". Esta mudança de estado é afirmada com o uso de algumas expressões e conceitos chaves como: o movimento "trevas-luz", o "chamado" (ideia de eleição), o adjetivo propriedade exclusiva, e outras termos que evocam este novo estado. Neste ponto, é importante destacar a noção de Senhorio de Cristo.

Não são poucas vezes que o Novo Testamento se refere a Jesus como Senhor (gr. kyriós). Isto se deve ao fato, de que há uma relação de soberania entre Cristo e seus súditos. Ele é o senhor "suserano", o rei, com quem os cativos-libertos firmam um pacto de liberdade. Por isso, os "chamados" são inseridos no novo reino, onde desfrutarão de todos os benefícios deste pacto. Na lógica bíblica não existem despatriados, ou se pertence a um reino tirano de escravidão ou a um reino de liberdade e justiça.

No Reino de Deus, não há "autonomia" no sentido moderno, no sentido de uma "lei para si mesmo". Esta proposta, remete a queda do homem no Éden. Por isso a "liberdade moderna" é uma falsa liberdade. A proposta bíblica é que em lugar da "autonomia" baseada no ego humano afetado pela queda, a verdadeira liberdade, que remete à criação, está em se submeter a lei de Deus. Algo que a teologia cristã-reformada chamaria de teonomia.

A teonomia é admissão de que no Reino de Deus a verdadeira liberdade opera-se pela internalização da lei de Deus pelo Espírito. Se baseia no cumprimento da profecia de Jeremias sobre a Nova Aliança , em que um dia a lei do Senhor seria escrita na mente e nos corações (Jr 31:31 e seg.). O Novo Pacto é uma nova relação senhorio-súdito, pois, no pacto anterior, havia uma submissão mecânica ao código da aliança, neste pacto renovado, a lei é inscrita, integrada ao interior humano. Por isso o profeta Ezequiel viu dias em que um coração regenerado seria dado ao homem e que o próprio Deus operaria (monergisticamente) a obediência da lei a partir dos corações dos homens (Ez e36:26-27). Esta é a liberdade do Espírito!

Enfim, a vocação é entender que vivendo nesta realidade do Espírito, no Reino de Deus (no Civitas Dei - adotando Agostinho), Jesus Cristo tornou-se Senhor, soberano sobre o Povo de Deus. O Povo de Deus vive uma realidade completamente nova e uma liberdade que é operada por Deus, quando Ele inscreve nos corações dos santos seus preceitos, concedendo-lhes nova identidade e novo sentido existencial. Isto é algo que atinge as relações concretas desta existência, a rotina, que envolve o comer, beber, casar, trabalhar, pesquisar etc. Agora, os resgatados vivem sob uma aliança, sob a linguagem e o estilo de vida de um novo reino, o Reino de Deus.

Soli Deo Gloria.
Kol HaKavod LaShem

Igor Miguel
do excelente Pensar...
em O Código da Aliança

Veja também: Realmente Pentecostal

domingo, 27 de setembro de 2009

Voltai para mim, diz o Senhor

Os profetas menores são absolutamente relevantes para a nossa geração. Sua mensagem é contundente, oportuna e urgente. Embora tenham vivido há mais de 2500 anos, abordam temas que estão na agenda das famílias, das igrejas e das nações.

Os profetas menores lamentavelmente têm sido esquecidos pela nossa geração. Poucos cristãos lêem e estudam com a devida atenção esses preciosos livros proféticos. Poucos pregadores, estudiosos expõem com clareza, fidelidade e profundidade esses livros no púlpito. Precisamos urgentemente resgatar a atualidades destes preciosos livros em nossos estudos, exposições e, principalmente aplicando estes livros à nossas vidas, famílias e ministérios.

No texto em destaque (Joel 2.12-14), o Eterno convoca o seu povo a se voltar para Ele. O arrependimento é o único caminho da restauração. É a única porta de escape do juízo. É arrepender-se e viver ou não se arrepender e morrer. O estudioso Dionísio Pape ressalta o fato de que não era suficiente ser o povo do Senhor. Não bastava morar na terra santa. Era necessária a conversão integral ao Senhor.

Veremos a seguir como deve ser a volta para Deus. Deus não apenas chama o seu povo a voltar-se para ele, mas detalha como deve ser essa volta.

Em primeiro lugar, é uma volta para uma relação pessoal com Deus (2.12). “[...] convertei-vos a mim ...”. Isto é magnífico, pois mostra o supremo valor da graça de Deus, pois o ofendido [Deus] é aquele que busca a restauração do ofensor [nós]; o ofendido é quem convida o transgressor a renunciar sua rebeldia.

Leslie Allen está correto quando diz que a expressão: "convertei" evoca o relacionamento pactual. O povo de Deus é como o filho pródigo que precisa voltar ao lar do Pai celestial. Não basta cair em si, é preciso voltar para casa. Não basta ter convicção de pecado, é preciso por o pé na estrada da volta para Deus. Não é apenas um retorno à igreja, à doutrina, à comunhão, a uma vida moral pura, mas uma volta para uma relação pessoal com Deus.

Em segundo lugar, é uma volta com profundidade (2.12) - “[...] de todo o vosso coração”.

O povo de Judá estava endurecido e indiferente à voz de Deus. Viviam para seus prazeres e não se importavam com as exortações do Senhor. O juízo estava à porta e eles folgavam em seus pecados. Antes do Eterno derramar seu juízo, Ele nos dá a oportunidade de nos arrependermos. Deus não aceita coração dividido (Sl 51.17). Ele não satisfaz com uma espiritualidade cênica, farisaica, hipócrita. Ele vê o coração e requer verdade no íntimo.

São muitos aqueles que, após um congresso, um retiro espiritual ou mensagem inspirativa, fazem lindas promessas a Deus. Comprometem-se a orar com mais fervor, a ler a Palavra com mais avidez, outros ainda, derramam lágrimas no altar do Senhor, fazem votos solenes, mas todo esse fervor desaparece tão rápido como a nuvem do céu e o orvalho que se evapora da terra.

Há aqueles que só andam com Deus na base do aguilhão. Só se voltam para Deus na hora que as coisas apertam. Só se lembram do Senhor na hora das dificuldades. Não se voltam a Ele porque o amam ou porque estão arrependidos, mas porque não querem sofrer. Para esses, o Eterno é descartável (Os. 5.15; 6.14). Estes possuem uma fé utilitarista.

Em terceiro lugar, é uma volta com diligência (2.12) – “[...] e isso com jejuns...”.

Deus conclama o seu povo que não aceita um arrependimento trivial, raso, transitório. Antes de serem restaurados precisam ser tomados de uma profunda convicção de pecado e de como haviam ofendido a Deus. Quem jejua tem pressa. Quem jejua está dizendo que a volta para Deus é mais importante e mais urgente que o sustento do corpo (Mt 4.4).

O jejum é instrumento de mudança, não em Deus, mas em nós. Leva-nos ao quebrantamento, à humilhação e a ter mais gosto pelo pão do céu do que pelo pão da terra. O jejum é uma experiência pessoal e intíma (Mt 6.16-18). Há momentos, porém, que ele se torna aberto, declarado e coletivo. Joel conclama o povo todo a jejuar nesse processo de volta a Deus (2.15).

O rei Josafá, numa época de profunda agonia e a de ameaça para o seu reino, convocou toda nação para jejuar, e o Eterno deu-lhe livramento (2 Cr. 10.1-4,22). A rainha Ester convocou todo o povo judeu para jejuar três dias, e Deus reverteu a sentença de morte já lavrada sobre os judeus exilados (Et. 4.16).

Em quarto lugar, é uma volta com sinceridade (2.13) – “Rasgai o vosso coração e não as vossas vestes”.

Deus não se impressiona com o desempenho humano. Ele não é movido por nossos gestos, nossa teatralização. Ele não se satisfaz com uma espiritualidade divorciada de uma vida de santidade. Ele não aceita um quebrantamento apenas exterior. Esse costume de rasgar as vestes era parte da reação cultural diante de uma crise (2 Rs. 19.1). A contrição interna é mais importante do que a manifestação externa de pesar. É o coração que deve ser atingido. É ele que deve ser rasgado.

O Eterno não se deixa enganar por nossos gestos, palavras bonitas e emoções sem quebrantamento. Deus vê o coração (1 Sm 16.7). Diante Dele não adianta “rasgar seda”: é preciso rasgar o coração. Para Deus não é suficiente apenas estar na igreja (Is 1.12) e ter um culto animado (Am 5.21-23). É preciso ter um coração rasgado, quebrado, arrependido e transformado. Um coração compungido jamais será desprezado por Deus.

Pr. Marcello de Oliveira
Fonte: A Supremacia das Escrituras

Bibliografia: Pape, Dionísio. Justiça e esperança para hoje, p. 28
Lopes, Hernandes Dias. Joel. Ed. Hagnos 2009
Wiersbe, Warren. Comentário Expositivo. Geográfica Editora – 2006

Voltai
(canção pertinente ao tema)


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quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Vencendo a corrida

A maioria de nós lê biografias para satisfazer a curiosidade a respeito de grandes nomes na esperança de descobrir o “segredo” de sua grandeza. No ano de 1952, Edmund Hillary tentou escalar o Monte Everest a mais alta montanha do mundo com 8.800 metros. Algumas semanas depois de uma tentativa fracassada, pediram-lhe que falasse para um grupo de pessoas na Inglaterra. Propositadamente, colocaram uma grande gravura do Monte Everest na parede do auditório. Quando ele viu a gravura, abaixou a cabeça e caminhou para o palco cabisbaixo. Mas, ao lhe perguntarem se havia desistido, ele se levantou, apontou para a figura da montanha no fundo do palco e disse em voz alta: “Monte Everest, dessa vez você me derrotou, mas na próxima eu o derrotarei, porque você já cresceu tudo o que tinha de crescer, mas eu ainda estou crescendo!” Em maio do ano seguinte, Edmund Hillary tornou-se o primeiro homem a escalar o Monte Everest. Após uma perda progressiva da audição, o compositor alemão Ludwig Van Beethoven ficou totalmente surdo aos quarenta e seis anos. Apesar disso, continuou compondo, e algumas de suas melhores composições, inclusive cinco sinfonias, foram escritas durante seus últimos anos.

Aqui neste texto de Filipenses 3, Paulo apresenta sua biografia espiritual, seu passado (Fp 3.1-11), presente (Fp 3.12-16) e futuro (Fp 3.17-21). Neste texto, vemos Paulo como um atleta, cheio de vigor espiritual, avançando para o alvo. Em suas epístolas, Paulo usa várias ilustrações para comunicar a verdade acerca da vida cristã. Quatro tipos de imagens destacam-se em particular: a militar( revesti-vos de toda armadura), a arquitetônica (habitação de Deus), a agrícola (aquilo que o homem semear) e a atlética deste capítulo.

Cada cristão está em uma pista de corrida; cada um tem uma raia específica, dentro da qual deve correr, e cada um tem um objetivo a alcançar. Quem alcançar o objetivo que Deus planejou será recompensado. Quem falhar, perderá a recompensa, mas não a cidadania (ver I Co 3.11-15, em que a mesma idéia é apresentada usando uma imagem arquitetônica).

Quais são os elementos essências para vencer a corrida e, um dia, receber a recompensa prometida?

1- Insatisfação (Fp 3.12-13a) “Não julgo, havê-lo alcançado.”

Essa é uma declaração de um cristão consagrado que nunca se deu por satisfeito com suas realizações espirituais. Muitos cristãos estão contentes com a própria situação, pois comparam sua carreira com de outros cristãos, que normalmente não fazem nenhum progresso em suas vidas. Se Paulo tivesse se comparado com outros, seria tentado a se orgulhar e, talvez, a relaxar um pouco. Afinal, eram poucos os cristãos de seu tempo que haviam tido experiências como as dele! Mas Paulo não se comparou com outros; antes, se comparou consigo mesmo e com Jesus Cristo. Ainda não alcançou a perfeição(Fp 3.12), mas já é “perfeito” [maduro] (Fp 3.15), e uma das características dessa maturidade é a consciência da própria imperfeição!

Em várias ocasiões, a Bíblia adverte sobre o perigo de iludir-se quanto à própria condição espiritual. É dito a igreja de Sardes: “tens nome do que vive e estás morto”(Ap 3.1). Sua reputação não correspondia à realidade. A igreja de Laodicéia vangloriava-se de sua riqueza, e auto-suficiência, Jesus diz: “vocês são pobres, miseráveis, cegos e nus (Ap 3.17). Ao contrário desta igreja, os irmãos de Esmirna consideravam-se pobres, quando, na verdade, eram ricos! (Ap 2.9)”.

2. Dedicação (Fp 3.13b)

“Uma coisa” – essa é uma expressão importante para a vida cristã. “Só uma coisa te falta”, disse Jesus para o jovem rico que se considerava justo (Mc 10.21). “Pouco é necessário, ou mesmo uma só coisa”, explicou para Marta quando ela criticou sua irmã” (Lc 10.42). “Uma coisa sei”, exclamou o homem que passou a ver pelo poder de Cristo (Jo 9.25).“Uma coisa peço ao Senhor,e a buscarei”, testemunhou o salmista (Sl 27.4). Muitos cristãos estão envolvidos demais com “várias coisas”, quando, na verdade, o segredo do progresso é concentrar-se em “uma coisa”.

O cristão deve dedicar-se a correr a carreira cristã. Nenhum atleta é bem sucedido ao fazer de tudo; seu sucesso deve-se a especialização. Os vencedores são os que se concentram e mantêm os olhos fixos em seu objetivo, sem deixar que coisa alguma os distraia. Como Neemias, que reconstruiu os muros de Jerusalém, respondem aos convites que podem distraí-los dizendo: “Estou fazendo uma grande obra, de modo que não poderei descer” (Ne 6.3).“Um homem de ânimo dobre [é] inconstante em todos os seus caminhos” (Tg 1.8). A concentração é o segredo do poder.

3. Direção (Fp 3.13c)

Os incrédulos são controlados pelo passado, mas o cristão que participa da corrida olha para o futuro. Você já imaginou o que aconteceria em uma corrida, se os corredores começassem a olhar para trás? Se o agricultor que está arando não deve olhar para trás (Lc 9.62), quanto mais o corredor, pois, se o fizer, o resultado poderá ser uma colisão e ferimentos graves. O cristão deve estar voltado para o futuro, “esquecendo-se das coisas que para trás ficam”. Convém lembrar que, na terminologia da Bíblia, o verbo “esquecer” não significa “deixar de lembrar”. A menos que se trate de um caso de senilidade, de hipnose ou de problemas neurológicos, nenhum individuo maduro é capaz de se esquecer do que aconteceu no passado. Na Bíblia “esquecer” significa “não ser mais influenciado ou afetado por algo”.Quando Deus promete: “Também de nenhum modo me lembrarei dos seus pecados e das suas iniqüidades, para sempre”(Hb 10.17), não está sugerindo que terá uma crise de memória curta! Isso é impossível para Deus. Antes, está dizendo: “não os acusarei desses pecados; não afetam mais sua situação diante de mim, nem influenciam minha atitude para com eles”.

Assim, “esquecendo-me das coisas que para trás ficam” não indica uma proeza mental impossível, nem um exercício psicológico por meio do qual tentamos apagar os pecados e erros do passado. Significa, que quebramos o poder do passado sobre o futuro. Não é possível mudar o passado, mas mudar seu significado é algo que se pode fazer.

Um excelente exemplo disso é José (Gn 45.1-15). Quando se encontrou com seus irmãos pela segunda vez e lhes revelou sua identidade, não guardou mágoa deles. Sem dúvida, o haviam maltratado, mas ele olhou para o passado do ponto de vista de Deus. Assim, ele não acusou seus irmãos de coisa alguma. José sabia que Deus tinha um plano para sua vida – uma carreira para completar – e ao realizar esse plano e olhar para o futuro, rompeu o poder do passado.

4. Determinação (Fp 3.14)

“Prossigo!” O mesmo verbo é usado no vs 12, e tem o sentido de esforço intenso. Os gregos costumavam usar esse termo para descrever um caçador perseguindo avidamente a presa. Um individuo não se torna um atleta vencedor ouvindo palestras, lendo livros ou torcendo em jogos. Antes, o atleta bem sucedido entra em jogo e se mostra determinado a vencer! O mesmo zelo que Paulo manifestava ao perseguir a igreja (Fp 3.6) pode ser observado em seu serviço a Cristo. Aliás, não seria maravilhoso se os cristãos demonstrassem tanta determinação em sua vida espiritual quanto demonstram quando vão à academia ou quando jogam futebol no fim de semana?

O atleta cristão corre com disposição, pois sabe que Deus deve operar nele e capacitá-lo a vencer a corrida (Fp 2.12-13). Deus opera em nós para que possa operar por meio de nós. Quando o individuo dedica-se as coisas da vida espiritual, Deus lhe dá maturidade e o fortalece para a corrida. “Exercita-te, pessoalmente, na piedade” (I Tm 4.7-8).

5. Disciplina (Fp 3.15-16)

Não basta correr com disposição e vencer a corrida; o corredor também deve obedecer às regras. Nos jogos gregos, os juízes eram extremamente rigorosos com respeito aos regulamentos, e o atleta que cometesse qualquer infração era desqualificado. Não perdia a cidadania (apesar de desonrá-la), mas perdia o privilégio de participar e de ganhar um prêmio. Era esse tipo de situação que Paulo tinha em mente em I Co 9.24-27: “Todo atleta em tudo se domina” (I Co 9.25). O atleta que se recusa a treinar é desqualificado, como também é o atleta que transgride as regras do jogo (II Tm 2.5). Um dia, todo cristão vai se encontrar diante do tribunal de Cristo (Rm 14.10-12). O termo grego para “tribunal” é bema, a mesma palavra usada para descrever o lugar onde os juízes olímpicos entregavam os prêmios! Se nos disciplinarmos a obedecer às regras, receberemos o prêmio.

O relato bíblico é repleto de gente que começou a corrida com grande sucesso, mas que fracassou no final por não atentar para as regras de Deus. Não perderam a salvação, mas perderam a recompensa (I Co 3.15). Que venhamos atentar para o texto de Hebreus 12.1: “Portanto nós também, pois que estamos rodeados de uma tão grande nuvem de testemunhas, deixemos todo o embaraço, e o pecado que tão de perto nos rodeia, e corramos com paciência a carreira que nos está proposta”. Amém.

Pr. Marcelo de Oliveira
Contato: evmarcello.olliver@gmail.com - Bibliografia: Wiersbe, Warren W. Comentário bíblico. Vol.6. Lopes, Hernandes Dias. Vencendo gigantes. Ed. Hagnos. - Originalmente em Bíblia World Net, na coluna Crescendo na Graça.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

O que pede de ti o Eterno, teu Deus?

O caminho dos justos“E agora, ó Israel, o que pede de ti o Eterno, teu Deus? Senão que O temas, que Andes por Seus caminhos, ames e O sirvas, com todo o teu coração e com toda a tua alma; que guardes Seus mandamentos e Seus estatutos...” (Deut. 10:12,13).

Nesta frase se encontram todos os aspectos da perfeição no serviço Divino, realmente apropriados em relação ao Santíssimo, louvado seja. Ou seja: temer a Deus, caminhar por Seus caminhos, dedicar-lhe amor e devoção e cumprir Seus mandamentos (Mitsvot).

O “temor a Deus” denota o temor à Majestade do Santíssimo; teme-Lo como temer-se-ia um poderoso rei, anulando-se a cada momento ante Sua grandiosidade, especialmente ao falar em Sua presença em oração ou ao engajar-se no estudo de Sua Torá.

“Trilhar Seus caminhos” engloba tudo que está relacionado com o desenvolvimento e a correção dos predicados de caráter. Nossos Sábios, de abençoada memória, nos explicaram: “Assim como Ele é misericordioso, sede também misericordiosos...”. A essência desta frase sugere que devemos moldar nossas virtudes e características, bem como pautar todas as nossas ações por princípios de ética e justiça. Eles assim resumiram esta idéia (Avot 2,1): “Que caminho deve ser escolhido pelo homem? O que é, em si, digno a quem o pratica e conduz os outros a exaltar seu louvor...” ou seja, tudo o que conduz ao que é intrinsecamente bom, isto é, ao fortalecimento na Torá e ao desenvolvimento do sentimento de fraternidade.

“Amor” – Que amor pelo Eterno seja implantado no coração de cada um, para que se eleve sua alma e busque fazer o que agrada ao Santíssimo, assim como seu coração anseia por agradar seu pai e sua mãe. Zeloso será por este amor, regozijar-se-á por realizá-lo com plenitude, e sentir-se-á frustrado ante sua ausência.

“Devoção” – que o serviço ao Eterno seja caracterizado pela pureza de intenção, e que sua finalidade seja somente servi-Lo e nada mais. Que seu coração esteja inteiramente devotado ao serviço Divino, sem que seja mecânica sua observância ou dividida sua atenção.

O “cumprimento das Mitsvot, como está explícito, é o cumprimento de todo o conjunto das Mitsvot, com todos os seus conteúdos, derivações e condições.

Possa o Eterno acolher com benevolência nossas aspirações e afastar os obstáculos que se possam antepor em nosso caminho para que em nós sejam atendidas as súplicas do Salmista, encantado pelo amor ao Eterno (Salmos 86:11): “Ensina-me Teu caminho, ó Eterno, para que eu possa andar sob Tua verdade e dedicar meu coração a temer somente Teu Nome”. Amen.

Moshe Chayim Luzzatto - (1707–1746).

sábado, 4 de outubro de 2008

Shuva Israel

Shuva Israel - Volta, ó IsraelEsta Haftará é lida no Shabat que cai entre Rosh HaShaná e Yom Kipur.

14
Volta, ó Israel, para o Eterno teu Deus, pois caíste pela tua iniqüidade. Tomai convosco palavras e voltai para o Eterno; dizei-lhe: Perdoa toda a iniqüidade e aceita em troca o que é bom; assim ofereceremos, em lugar de novilhos, as preces dos nossos lábios. A Assíria não nos salvará; não montaremos em cavalos nem diremos mais à obra das nossas mãos: Tu és nosso deus; porque só em Ti o órfão alcançará piedade. Curarei a sua apostasia, amá-los-ei voluntariamente, porque a Minha ira se afastou deles. Serei para Israel como o orvalho; ele brotará como a rosa e lançará as suas raízes como as do Líbano. Estender-se-ão os seus ramos, e a sua formosura será como a da oliveira, e a sua fragrância como a do Líbano. Os que se abrigavam à sua sombra voltarão; se vivificarão como o cereal e florescerão como a videira, e a sua fama será como a do vinho do Líbano. Quando Efráim disser: Que tenho eu mais com os ídolos? Eu lhe responderei, e cuidarei dele. Eu sou como o cipreste verde; de Mim provém o teu fruto. Quem é sábio que entenda estas coisas, quem é inteligente que as saiba. Que os caminhos do Eterno são retos, e os justos andarão neles, mas os transgressores tropeçarão, porque não andaram neles.

Os Sefaradim continuam com “Quem, ó Deus...”, mais adiante.
Os Ashkenazim prosseguem até “jamais será envergonhado”.

2 E o Eterno elevou Sua voz diante de Seu exército, porque era muito grande Seu acampamento e poderoso ao cumprir Sua palavra, pois grande é o dia do Eterno e muito temível; e quem poderá suportar? Agora também, diz o Eterno, voltai a Mim de todo vosso coração, com jejum, pranto e lamentação; rasgai vossos corações, mas não vossas roupas, e voltai ao Eterno, vosso Deus, porquanto Ele é misericordioso e piedoso, tardio em irar-Se e grande em benignidade, que reconsidera sobre o mal. Quem sabe Ele Se volte e reconsidere, e deixe atrás de Si uma benção, uma oferta e uma libação para o Eterno, vosso Deus. Tocai o Shofar em Tsión, promulgai um jejum, proclamai uma assembléia solene. Reuni o povo, congregai a assembléia, ajuntai os anciãos, reuni os filhinhos e os que mamam no peito; saia o noivo da sua recâmara e a noiva do seu tálamo. Chorem os sacerdotes, ministros do Eterno, entre o pórtico e o altar, e digam: Apieda-Te de Teu povo, ó Eterno, e não entregues a Tua herança ao opróbrio, para que as nações façam escárnio dele. Por que hão de dizer entre os povos: Onde está o Seu Deus? Então, o Eterno terá zelo por Sua terra, e Se compadecerá do Seu povo. E o Eterno responderá, e dirá ao Seu povo: Eis que vos envio o grão, o mosto e o azeite, e deles sereis fartos, e não vos entregarei mais ao opróbrio entre as nações. E o gafanhoto que vem do norte, Eu o removerei para longe de vós, e lançá-lo-ei numa terra seca e deserta; a parte da frente da nuvem de gafanhotos, lançá-la-ei para o mar oriental (mar Morto), e a parte posterior dela, para o mar ocidental; e subirá o seu mau cheiro e subirá o seu fedor; porque fez grandemente mal. Não temas, ó terra! Regozija-te e alegra-te, porque o Eterno fez grandes coisas. Não temais, animais do campo, porque os pastos do deserto reverdecerão, porque o arvoredo dará o seu fruto e a figueira e a videira produzirão com vigor. E vós, filhos de Tsión, regozijai-vos e alegrai-vos no Eterno, vosso Deus, porque Ele vos dará a chuva na justa medida, e vos fará descer a chuva, a temporã e a serôdia, como outrora. E as eiras se encherão de trigo, e os lagares transbordarão de mosto e de azeite. E restituir-vos-ei os anos que comeu o gafanhoto, a locusta que rói a verdura, a que rói o grão e a que rói as frutas, os quais são o Meu grande exército, que enviei contra vós. E comereis abundantemente até fartar-vos, e louvareis o nome do Eterno, vosso Deus, O qual obrou para convosco maravilhosamente; e o Meu povo jamais será envergonhado. E vós sabereis que Eu estou no meio de Israel, e que Eu sou o Eterno, vosso Deus, e não há outro; e o Meu povo jamais será envergonhado.

Os Ashkenazim encerram aqui. Os Sefaradim continuam:

7 Quem, ó Deus, é semelhante a Ti, que perdoas a iniqüidade, e passas sobre a transgressão dos que restam de Tua herança! Ele não detém a Sua ira para sempre, porque tem prazer na misericórdia. Tornará a ter compaixão de nós; segurará com força as nossas iniqüidades e lançará todos os nossos pecados nas profundezas do mar. Torna realidade o que prometeste a Jacob, pois isto é a recompensa da bondade de Abrahão, que juraste a nossos pais desde os dias antigos.

Torá, A Lei de Moisés, pág. 598.
Ashkenazim: Oséias 14:2-10 e Joel 2:11-27 / Sefaradim: Oséias 14:2-10 e Miquéias 7:18-20

terça-feira, 16 de setembro de 2008

O Propósito da Obediência

Obediência (clique na imagem para ampliar)“As coisas encobertas pertencem ao Senhor, nosso Deus, porém as reveladas nos pertencem, a nós e a nossos filhos, para sempre, para que cumpramos todas as palavras desta lei” (Deuteronômio 29:29).

A palavra de Deus não é nos dada para o propósito de especulação sem ação, mas para o propósito da obediência. Nós nos apropriamos erroneamente da verdade que Deus revelou quando a tornamos meramente o motivo de um debate intelectual. O propósito maior das Escrituras – exigindo mais esforço e prometendo uma recompensa mais rica – é fornecer os materiais práticos para construir uma vida melhor, mais obediente. Quando estudamos, devemos procurar estas informações para serem obedecidas. Estudar por qualquer outro motivo é, na verdade, perigoso.

Em relação à obediência, um problema é que demoramos em obedecer aquilo que já aprendemos das Escrituras porque não conseguimos ver tão longe quanto gostaríamos de ver na estrada teórica. Talvez não entendemos completamente por que Deus exigiria tal coisa como as Escrituras indicam. Ou pode não estar claro para nós quais seriam as conseqüências se aceitássemos a palavra de Deus sem questionamento. Ou podemos não ver como este ou aquele ato de obediência se encaixa no plano geral da vontade de Deus. Não há falta de obstáculos, mais ou menos teóricos, que podem atrapalhar o aluno sério que não só quer obedecer, como também deseja entender o que está sendo feito. A ironia do crescimento, contudo, é que a compreensão vem de levar adiante a nossa obediência ao invés de segurá-la. “A compreensão pode esperar, a obediência não pode”.

Um outro problema relacionado à obediência é que, muitas vezes, demoramos em fazer o nosso dever até acharmos que está tudo certinho. Podemos pensar que é necessário progredir mais na área da teoria espiritual antes de conseguirmos melhorar na área da prática espiritual. E assim nós demoramos nas muitas coisas abstratas, buscando a força necessária para a vida obediente. Porém, o caminho para a satisfação de progresso espiritual vai por meio da obediência honesta daquilo que já sabemos ser certo, não pela trilha sinuosa de curiosidades teóricas. Não podemos buscar a Deus sem usar as nossas mentes de acordo com toda a nossa capacidade, é verdade. Mas nem podemos encontrar a Deus sem cumprir aquilo que as nossas mentes já aprenderam.

A coisa mais importante na vida não é evitar os erros, mas sim praticar a obediência da fé. Pela obediência, o homem é levado passo a passo a corrigir os seus erros, enquanto nada acontecerá com ele se ele não começar. (Paul Tournier)

Gary Henry
*Recebido por e-mail.

segunda-feira, 17 de março de 2008

Substitutos baratos

Viver sob o governo do céu nos liberta e nos confere poder para amar como Deus ama. Mas fora da segurança e suficiência do céu, nos vemos amedrontados e irados demais para amar os outros ou a nós, de modo que providenciamos substitutos baratos na forma de prazeres e “amores” de vários tipos. Em linguagem contemporânea, poderíamos expressar a comparação que Jesus faz entre ágape, o tipo de amor que vem de Deus, e aquilo que normalmente se faz passar por esse amor como: “Grande coisa vocês amarem aqueles que amam vocês! Até os terroristas amam desse modo! Se o seu ‘amor’ não passa disso, Deus certamente não faz parte dele. Suponhamos, ainda, que você seja amigável com ‘pessoas do seu tipo’. A máfia também é!” (Mt 5:46-47)

Agora reflita: você alguma vez foi generoso e abençoou alguém que o insultou ou humilhou? Você consegue trabalhar sem esperar recompensas, visando ao bem de alguém que o despreza abertamente, que talvez lhe disse que preferia ver você morto? Você está torcendo de fato pelo sucesso de alguém que está concorrendo com você por um favor, cargo ou benefício financeiro? É isso o que fazem as pessoas controladas e permeadas pelo amor que vem de Deus.

Vi escrito num capacho “Sejam bem-vindos amigos!”. Mas será que você também é capaz de receber com sinceridade seus inimigos? Quando você empresta um vestido, aparelho de som, carro, ferramentas ou livros, consegue abrir mão desses objetos sem a esperança de que sejam devolvidos, como Lucas 6:35 sugere que façamos? Gosto de trabalhar com marcenaria e mecânica e, como os vizinhos logo descobrem, tenho várias ferramentas. Fico feliz quando tenho a oportunidade de emprestar uma serra elétrica, uma chave inglesa ou um alicate para alguém, pois vejo essas situações como um exercício de desapego e entrega a Deus. Com uma pontada de preocupação egoísta aqui e ali, estou aprendendo a amar os outros por meio desses pequenos gestos quem fazem uma grande diferença em nossos relacionamentos.

Extraído do livro “A Grande Omissão”

Autor: Dallas Willard é professor da Escola de Filosofia da Universidade do Sul da Califórnia. Graduou-se em psicologia pela Faculdade William Jewell e em Filosofia da Religião pela Universidade Baylor, onde fez doutorado. Suas obras filosóficas concentram-se nas áreas da Epistemologia e da Filosofia da mente e da Lógica. Trabalhou também na Fundação CS Lewis e na Universidade de Biola.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Bem-aventurado o que confia no Senhor

Quem quiser de Deus ter a coroa,
Passará por mais tribulação;
Às alturas santas ninguém voa,
Sem as asas da humilhação;
O Senhor tem dado aos Seus queridos,
Parte do Seu glorioso ser;
Quem no coração for mais ferido,
Mais daquela glória há de ter.

Harpa Cristã (Hino 126)
Bem-aventurança do crente (3ª estrofe)

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

O Sacrifício da Cruz

Leitura: "Salvou os outros, a Si mesmo não pode salvar-se" (Mt 27.42).


"Salvou os outros, a Si mesmo não pode salvar-se" (Mt 27.42). Esse foi o escárnio dirigido ao Cristo que morria, quando ficou pendurado em Sua cruz naquele "distante monte verde". Palavras de deboche, mas incorporando a própria essência da vida e morte do Filho de Deus, a própria essência dos tratos de Deus com o mundo - a própria essência do Calvário. "Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o Seu Filho unigênito". Para salvar os outros - pecadores, rebeldes, inimigos - o Pai não pode salvar a Si mesmo de enviar, do Seu seio, o Filho do Seu amor. Para salvar os outros, o Filho não pode salvar a Si mesmo, mas deve derramar Sua alma na morte e, assim, ver Sua semente e dividir o despojo com os poderosos (Is 53.12 - EC). Para salvar os outros, o Espírito Santo não pode salvar a Si mesmo da angústia, à semelhança da tristeza e angústia do Filho no Getsêmani, em Sua entrada no coração dos que uma vez afundaram-se no pecado e são freqüentemente obstinados e desobedientes aos clamores do Filho.

Salvou os outros, a Si mesmo não pode salvar-se. Essa expressão engloba, em poucas palavras, toda a história do caminho do Deus-Homem na terra; desse modo, Ele manifestou ao homem caído a expressa imagem ou caráter (conforme o grego, Hb 1.3) do Pai no céu. "Nisso se manifestou o amor de Deus em nós: em haver Deus enviado Seu Filho unigênito (...) para vivermos" (1 Jo 4.9). "Nisto conhecemos o amor: que Cristo deu a Sua vida por nós" (3.16). O caráter de Deus foi revelado em Seu Filho; a natureza divina foi manifestada Naquele que era a "expressão exata do Seu ser". Resumindo: salvar os outros é próprio de Deus, recusando-se salvar a Si mesmo.

Salvou os outros, a Si mesmo não pode salvar-se. Isso não significa que Ele não tivesse o poder e os recursos para salvar a Si mesmo. Pelo contrário, Ele tinha o poder, mas não iria usá-lo! Salvar os outros quando isso não custa nada a você é algo possível até para criaturas caídas. Mas salvar os outros e recusar-se a salvar a si mesmo quando você tem condições para fazê-lo é divino. Ele não pode salvar a Si mesmo porque é contrário à natureza divina salvar o ego à custa da perda dos outros.

A Si mesmo não pode salvar-se. Palavras impressionantes, pronunciadas como deboche e pelos lábios de pecadores que crucificaram o seu Salvador. Mesmo na tentação no deserto (Mt 4.1), essa lei da Sua vida foi manifestada; ali Ele não se alimentou, porque não podia alimentar a Si mesmo, mas mais tarde, alimentou os outros (14.13-21). Ele podia utilizar todo o poder da Divindade para abençoar os outros, para alimentar os outros, para salvar os outros; mas para Si mesmo, nada! Não usou os recursos divinos para salvar a Si mesmo num momento de fome aguda, para ter uma palavra menos de desprezo ou um golpe menos do açoite, e ser apenas golpeado com a mão. Assim devem ser os filhos de Deus conformados à imagem do Filho, para manifestar Seu caráter divino, como o Filho revelou a expressa imagem do Pai. "Salvou os outros, a Si mesmo não pode salvar-se" é a lei da vida de Jesus e deve ser a lei da vida de cada seguidor do Cordeiro.

Ter o poder para salvar a si mesmo e recusar-se a usá-lo, porque, se o usasse, os outros não poderiam ser salvos, é a vida de Jesus manifestada naqueles que Ele redimiu. Derramar sua vida pelos outros que o rejeitam e o julgam incorretamente, quando você não precisaria fazê-lo: isto é o Calvário! Ter o poder para salvar a você mesmo e não usá-lo, por significar perda para os outros: isto é o Calvário! Ser usado para libertar almas do poder de Satanás e, depois, colocar-se, como Cristo o fez, à aparente mercê da "vossa hora e o poder das trevas" (Lc 22.53): isso é verdadeiramente o Calvário!

Ó filho de Deus, Ele salvou os outros, mas a Si mesmo não pode salvar! Este deve ser o caminho para você em cada momento de tensão dolorida e tempestade para os seguidores do Cordeiro. Deus tem usado você para libertar os outros, e talvez você esteja desejando saber por que você mesmo não é libertado das lutas por fora e temores por dentro (2 Co 7.5) que estão assediando sua própria vida. Outros vêm a você em extrema necessidade, e, com seu próprio coração partido, você é solicitado a dar do seu próprio vazio e com a perda daquilo que parece ser sua própria necessidade. Você é solicitado a clamar pela vitória pelos outros que estão em angústia, quando você mesmo parece estar em angústia muito maior. No Calvário foi assim! Aquele que havia libertado outros do poder de Satanás foi entregue, como vimos, à fúria total do poder das trevas. Aquele que havia realizado obras poderosas de Deus pelos outros, jaz em impotência e fraqueza nas mãos dos homens. Sim, isso é o Calvário. Vida, poder, bênção e libertação para os outros, e nada para você mesmo, a não ser permanecer na vontade de Deus e aceitar das mãos do Pai tudo o que for do Seu agrado permitir que chegue a você.

Salvou os outros - todos os recursos em Deus e o poder de Deus para os outros! A Si mesmo não pode salvar-se - impotência, vacuidade, sofrimento, conflito e morte para Si mesmo. Essa foi a marca registrada da mais elevada manifestação do espírito do Cordeiro vista nos heróis da fé, conforme o registro de Hebreus 11; e entre esses heróis da fé, que alcançaram o lugar mais elevado nesse rol de honra, estavam mulheres que foram abatidas à morte, não aceitando o livramento, a fim de que pudessem alcançar uma melhor ressurreição (v. 35) . Sim, essa é a marca registrada mais elevada do espírito do Cordeiro. Subjugar reinos, obter promessas, fechar a boca dos leões, extinguir a violência do fogo, escapar ao fio da espada, tornar-se poderoso na guerra (v. 34) - tudo como resultado de fé num Deus Onipotente -: isso é poder; mas ser torturado e não aceitar ser resgatado (v. 35) - isso é o Calvário. A escolha voluntária para sofrer e morrer, ao invés de salvar a si mesmo, é algo mais elevado do que a fé para conquistar e subjugar.

E, se não estamos enganados, esse é o caminho mais elevado colocado diante de todos aqueles que avançam em direção ao alvo da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus no tempo presente. "Nova evidência de que Deus está operando poderosamente para levantar e estabelecer um povo realmente conformado à morte de Cristo veio a mim esta manhã - um assunto muito mais sério e poderoso do que a concessão de dons", escreveu um ministro de grande experiência e em condições de ver e conhecer de forma especial a tendência da obra do Espírito. Sim, Deus "está operando poderosamente em minha direção", dirão muitas almas profundamente provadas, quando pensam em seu próprio caso e nos caminhos estranhos e especiais nos quais estão sendo estranhamente conduzidas, a fim de poder conhecer o caminho da cruz e entrar no espírito do Cordeiro.

Dois caminhos parecem estar claramente abertos diante da Igreja de Deus, com uma escolha para cada membro do Corpo de Cristo, que tem resultados eternos. Há a conformidade ao Cordeiro, que já mencionamos antes, em relação à qual necessitamos de visão divina para discernir sua beleza e glória celestiais. Por outro lado, o caminho de salvar a nós mesmos do sentido pleno de tudo o que significa seguir o Cordeiro na terra, com a conseqüente perda da glória de participar do trono do Cordeiro. Porque está escrito: "Se com Ele sofremos, com Ele reinaremos" (2 Tm 2.12 - BJ); "se com Ele sofremos, com Ele também seremos glorificados" (Rm 8.17). O sofrimento de Cristo foi totalmente voluntário, pois Ele disse: "Eu dou a minha vida (...) Ninguém a tira de mim; pelo contrário, eu espontaneamente a dou" (Jo 10.17, 18). E no caminho da conformidade à Sua morte, muitos que escolheram seguir o Cordeiro onde quer que Ele vá (Ap 14.4), encontram-se no caminho da cruz, o que poderia ser evitado, se quisessem! Eles poderiam aceitar o livramento e salvar a si mesmos, mas perderiam a superior ressurreição. Isso é, na verdade, o espírito do Cordeiro morto, suprido pela graça de Deus a pecadores redimidos. Tudo o que é da terra, nas vozes dos amigos e do mundo, e da própria vida deles clama: "Salva a Ti mesmo e a nós". Mas o Espírito de Cristo no interior deles os conduz no caminho do Cordeiro, pois, como Ele, não podem salvar a si mesmos. Ver um caminho de escape do sofrimento e, por sua própria livre escolha, decidir recusar-se a entrar por ele, por significar a salvação deles mesmos: isto é digno de reconhecimento diante de Deus, pois é o caminho mais próximo da semelhança com Aquele a respeito do Qual foi dito em tom de escárnio: "Salvou os outros, a Si mesmo não pode salvar-se."

(Jessie Penn-Lewis, in A Cruz: O Caminho Para o Reino,
Editora dos Clássicos, Direitos gentilmente cedidos pelos editores).

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Asas Quebradas

"Eu sou o Deus de Teu pai, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque, e o Deus de Jacó. Moisés escondeu o rosto, porque temeu olhar para Deus." ( Livro do Êxodo, 3.6)

Há um velho provérbio anglo-saxônico que diz: "um pássaro com asa quebrada nunca mais voará tão alto". Em outras palavras, uma vez que nós tenhamos caído, jamais conseguiremos nos levantar totalmente como dantes. Uma vez caído, sempre caído. "Afinal, não se pode esperar muito de um pássaro com a asa quebrada".

Como parecem soar sábias as palavras deste trecho agridoce da poesia de Hezekiah Butterworth; pelo menos, até o ponto em que iluminamos com a lanterna poderosa das Escrituras, quando tal sabedoria revela-se inconsistente, espúria e sem lastro bíblico.

Na verdade, se fôssemos dar outro nome adequado à Palavra de Deus, deveríamos chamá-la de "A Galeria das Asas Quebradas" – homens que falharam, caíram - muitos deles fragorosamente -, mas que pelas cordas da misericórdia de Deus e de Sua graça incompreensível, foram guindados de seus fracassos às alturas dos grandes heróis da fé.

Como é bom pensarmos que o nosso Deus é o Deus de Abraão – que mentiu gritantemente, falseando a verdade, e mesmo depois de ter mentido por duas vezes foi reconhecido como "o amigo de Deus". Com sua "asa quebrada", Abraão voou mais alto do que ele ou qualquer outro havia voado.

Como é bom pensarmos que o nosso Deus é o Deus de Jacó – trapaceiro e enganador – na maioria das vezes sem quaisquer escrúpulos – candidato in extremis a caso perdido. Contudo, não obstante a esse "currículo invejável" Deus o elevou de tal modo que o seu velho nome não pôde conter tanta glória, e de Jacó, passou a chamar-se Israel.

Como é bom pensarmos que o nosso Deus é o Deus de Raabe, a prostituta, mulher da zona de meretrício. Como Deus a usou não obstante a sua baixa reputação! A despeito de suas asas quebradas, Deus a escolheu como um instrumento, não só para salvar a vida de dois de seus corajosos servos, como para trazer o Seu Filho ao mundo. Nunca "asas quebradas" voaram tão alto na graça de Deus.

Como é bom saber que o nosso Deus é o Deus de Davi, que embora Seu servo, aquinhoado com toda sorte de bênçãos, inebriado pelas tépidas ilusões do pecado, entregou-se a flagelante malignidade do adultério e do assassínio. Contudo, suas "asas quebradas" não lhe impediram de ser chamado o homem segundo o coração de Deus.

Sim! A Bíblia é a galeria das "Asas Quebradas". Porque o nosso Deus é o Deus que prefere usar pessoas de asas quebradas. Aliás, se Deus não fosse o Deus que usa "os de asas quebradas", nós não estaríamos lendo esse Pão Quente agora.

Todos esses grandes homens e mulheres que se tornaram os grandes heróis da fé, os gigantes dentre o povo de Deus, um dia tiveram as suas asas quebradas pelo deslize, pelo tombo do fracasso e do pecado. Deus os encontrou assim. E os fez voar como nunca antes feito e imaginado.

Quem sabe, no meio dessa conjuntura evangélica em que nós vivemos, onde somos levados por um legalismo exacerbado e farisaico a pensar que não há mais espaço nos planos de Deus para os que caem e deslizam, não estejamos nos sentindo descartados, riscados da agenda divina, deletados de Sua memória, jogados em Sua lixeira cósmica.

Moisés, que um dia esteve assim depois de seus fracassos como libertador, ouviu do Senhor uma palavra maravilhosa que lhe trouxe duas verdades acerca do Deus que ele mesmo desconhecia.

1.
Deus é o Deus dos Homens que Fracassam. Quando Deus disse a Moisés que Ele era o Deus de Abraão, Isaque e Jacó, aparentemente parecia estar listando os nomes dos primeiros superstars da Bíblia – superficial interpretação. Na verdade, o que Deus estava dizendo para Moisés quando cita os patriarcas é que Ele é Deus de Homens que fracassam. Todos eles tiveram as asas quebradas, fracassaram em algum ponto de suas vidas. deram com a cara no lodo da vida. Foram imperfeitos. Mas subiram às alturas porque souberam confiar no Deus que usa os homens, mesmo quando estes fracassam.

2.
Deus é o Deus da Segunda Chance. A rigor, todo homem fracassa, mais cedo ou mais tarde. Uns percebem isso mais cedo, outros mais tarde. Mas quando homens de Deus que um fracassaram conseguem galgar a galeria dos grandes heróis da fé é por que o nosso Deus é o Deus da segunda chance, da segunda oportunidade. É o Deus disposto a reescrever a nossa história. Aquele era a chance de Moisés descobrir isso de modo maravilhoso. Eu já tive o meu dia. Talvez hoje seja o seu.

Antes de pensar em desistir por causa de asas quebradas, gostaríamos que meditasse nisso. A Bíblia NÃO É UM LIVRO DE HOMENS PERFEITOS – É O LIVRO DE HOMENS RESTAURADOS PELA GRAÇA E O SANGUE DE JESUS.

Rev. José Kleber
Igreja Presbiteriana do Brasil

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Não por força nem por poder

“Não adianta nada me dar uma peça como Hamlet ou Rei Lear e me dizer para escrever uma peça assim. Shakespeare conseguia – eu não. E não adianta nada me mostrar uma vida como a vida de Jesus e me dizer para viver uma vida assim. Jesus conseguia – eu não. Mas se a genialidade de Shakespeare pudesse vir e habitar em mim, então eu poderia escrever uma peça como essas. E se o Espírito pudesse vir para dentro de mim, então eu poderia viver uma vida como a dEle.”

*William Temple, arcebispo na década de 1940, citado por John Stott em seu último sermão público.

domingo, 9 de abril de 2006

Relacionamentos

RelacionamentoRecentemente li o livro 'Eu disse adeus ao namoro' de Joshua Harris e anotei em um caderno algumas idéias que achei interessantes, as quais compartilho agora com vocês. As idéias podem ser 'bonitinhas', mas se não formos zelosos não tem qualquer proveito; digo isso a mim mesmo. Apesar de deixar a desejar quanto a alguns fundamentos, o livro possui boas lições, sendo algumas delas as que posto logo abaixo.

Sobre o tema de relacionamentos, recomendo os livros 'Sua Perfeita Fidelidade', 'Romance à Maneira de Deus' e 'Com Amor Eterno'.

(o fato de ter lido e indicar tais livros não significa que necessariamente eu concorde com todas as idéias neles propostas)
'Eu disse adeus ao namoro':

A intimidade sem compromisso desperta desejos – emocionais e físicos – que nenhum dos dois pode satisfazer se agirem corretamente. A Bíblia chama isso de ‘defraudar’, em outras palavras, roubar alguém ao criar expectativas mas não satisfazendo o que foi prometido. Prometendo algo que não podemos ou não iremos cumprir.

Uma programação a dois tem a tendência de levar um rapaz e uma moça além da amizade e na direção do romance muito rapidamente. Independente se as pessoas estão conscientes disso ou não, o “programa” estimula expectativas românticas.

Ter intimidade sem compromisso é defraudar. Intimidade sem compromisso, semelhante a cobertura sem o bolo, pode ser gostoso, mas no final passamos mal.

O namoro geralmente isola o casal de outros relacionamentos vitais. Quantas pessoas terminam seus namoros e encontram quebrados os seus laços de amizade com os outros.

A não ser que um homem esteja preparado para pedir a mão de uma mulher em casamento, que direito tem de requisitar a sua atenção exclusiva? A não ser que tenha sido pedida em casamento (aos Pais, discipuladores), porque uma mulher sensível dedicaria a qualquer homem a sua atenção exclusiva?

Deus tem inúmeras experiências maravilhosas que Ele quer nos dar, mas Ele também as determinou para épocas específicas para nossa vida. Na nossa limitação humana, frequentemente cometemos o erro de tirar uma coisa boa da sua época apropriada para aproveitá-la quando desejamos. Como uma fruta colhida ainda verde ou uma flor cortada antes de se abrir, as nossas tentativas de apressar o tempo de Deus pode estragar a beleza do Seu plano para nossa vida.

A intimidade é a recompensa do compromisso – eu não devo estar em uma situação que possa gerar expectativas de um relacionamento romântico antes de estar pronto para o casamento.

A intimidade ‘custa’ compromisso. Se eu não estiver preparado para pagar à vista, com o difícil “dinheiro” do compromisso, eu não tenho nada que “sair fazendo compras”, nem tampouco me “anunciando”.

Façamos um favor aos nossos futuros cônjuges e paremos de “sair para fazer compras”; nem deixemos que nos assediem.

Precisamos parar de agir como “caçadores”, ou de nos fazermos de “caça”. Precisamos eliminar toda espécie de flerte, de paquera, e temos que fugir de participar de “joguinhos”. Temos que redobrar a atenção para certificarmos que nada do que dizemos ou fazemos estejam provocando sentimentos ou expectativas inadequadas.

As moças principalmente, por favor estejam atentas de quão fácil suas ações, palavras e olhadelas podem despertar expectativas românticas e até luxúria no coração e mente de um rapaz. Talvez vocês não se dêem conta disso, mas nós rapazes na maioria das vezes lutamos com nossos olhos. Às mulheres que assumem a responsabilidade de protegerem os olhos, mente e coração dos seus irmãos, meu muito obrigado.

“O casamento é um processo de refinamento. O conflito ocorrerá em todos os casamentos. Quando os problemas aparecerem entre vocês dois, será fácil de se culparem. “Se você deixasse o ar condicionado ligado quando está calor, eu não ficaria chateada!” O fato é que, seu cônjuge não fará você pecar. Ele simplesmente revelará o que está em seu coração. Um dos melhores presentes que Deus nos dará é um espelho grande chamado cônjuge. Se Ele colocasse um cartão nele, estaria escrito: “Isto é para que você descubra quem você realmente é. Parabéns!” (citação do livro ‘Love That Lasts’ de Gary e Betsy Ricucci).”

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