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sexta-feira, 23 de abril de 2010

Sinceridade e verdade

A sinceridade é um elemento essencial; sem ela, ninguém pode esperar chegar à verdade. A pessoa insincera não pode ser defendida. Porém, dizer que sinceridade e verdade são idênticas é cair em um erro quase tão perigoso como defender a verdade de modo insincero. A sinceridade é algo necessário; é essencial. Mas, quando se assevera, conforme muitos fazem, que nada mais realmente importa, senão a honestidade e o zelo, então o pêndulo já oscilou para o extremo oposto...

Martin Lloyd-Jones

quarta-feira, 10 de março de 2010

Cristo: Nossa Segurança

“Deus não olha para mim e diz que, devido eu crer, ele considerará isso como justiça. Absolutamente, não! O que Ele diz é o seguinte; ‘Eu lhes darei a justiça de meu filho, que guardou a lei perfeitamente por vocês, e que morreu pelos pecados de vocês. Ele é absolutamente justo diante da lei, e Ele os tem representado diante da lei. Ele cumpriu todos os iotas dela, e portanto lhes conferirei Sua justiça’. Deus me convoca a crer nEle, e Ele me deu, pelo Dom da fé, o poder de crer. Portanto, olho para Cristo, não para mim mesmo, não para minha fé; minha justiça está inteiramente no Senhor Jesus Cristo. Deus O fez ‘sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção’ (1Co.1:30). Por conseguinte, não confio em nada que esteja em mim mesmo, nem mesmo na minha fé. Minha fé me leva a confiar inteiramente no Senhor Jesus Cristo. E, sabendo que Deus imputou a mim Sua justiça, sei que tudo está entre mim e Deus. Creio em Sua declaração. Minha fé a aceita. Ele lançou a meu crédito o perfeito, o imaculado, o inconsútil manto de justiça de seu amado Filho. Essa é a doutrina bíblica e a doutrina protestante da justificação somente pela fé.”

Martyn Lloyd Jones

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Lloyd-Jones sobre o preparo do pregador

Há um tempo atrás, li alguns capítulos do livro Pregação e Pregadores, do Dr. Lloyd-Jones. Em especial, gostei bastante de um capítulo (p. 155 a 171) em que ele fala sobre a preparação do pregador. Achei interessante e resolvi fazer um pequeno resumo, pois creio que essa preparação serve não apenas para o pregador, mas para qualquer crente. Só que coloquei o resumo em forma de entrevista (o que não é nada criativo) por ser mais didático.
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Otdx: Como o pregador se prepara, ou deveria se preparar?

Na verdade, o pregador está sempre se preparando. Para ele não há feriado, pois tudo o que faz, seja em férias ou em seu trabalho normal, é relevante para a obra da pregação. A tarefa mais fundamental é a sua própria preparação, e não o sermão em si.

Otdx: O que ele deve fazer para obter esse bom preparo?

Deve manter uma boa disciplina em sua vida, tomar cuidado com o horário e com as distrações do dia-a-dia. Deve observar os horários em que “funciona” melhor, para obter um bom aproveitamento. Para isso, é necessário que ele faça um planejamento de suas atividades.

Otdx: Onde entra a oração nesse preparo?

A oração é vital! Não devemos orar para satisfazer uma norma. É preciso aprender como iniciar. Por exemplo, começar com a leitura de algo que aqueça o nosso espírito. Temos de aprender a usar o nosso “afogador espiritual”. A oração deve continuar durante todo o dia e pode ser breve. Às vezes, uma simples exclamação é uma verdadeira oração. Sempre devemos reagir favoravelmente a todo impulso para orar. “Deus é quem efetua em nós tanto o querer quanto o realizar” (Fp 2.12-13). A oração nos ajuda a pensar, a ler a palavra, a escrever...

Otdx: Com relação ao estudo da Bíblia, quais os seus conselhos?

O grande perigo é lermos a Bíblia ao acaso, pegando somente as passagens de que gostamos. O certo seria lermos a Bíblia pelo menos uma vez por ano, todos os anos. Feita essa leitura geral todos os dias, podemos estudar um livro específico da Bíblia com a ajuda de comentários. Não se deve ler a Bíblia à procura de textos para sermões, mas sim porque ela é um alimento de Deus para a alma. Assim fazendo, logo descobriremos um texto em particular que nos abala, sugerindo um material para o sermão. Quando estiver lendo a Bíblia e algum versículo se destacou, pare e medite nele. Escute-o, fale com ele, até que surja o “esqueleto” de um sermão. Uma dica é ler a Bíblia sempre com um bloco de anotação do lado.

Otdx: O senhor costuma fazer alguma espécie de devocional?

Sim, sim, costumo fazer meu próprio devocional. Leio obras que me ajudam a compreender a Bíblia e a me deleitar nela. Na minha opinião, essa leitura deve vir após a leitura da Bíblia. Uma dica seria ler as obras dos puritanos, que são excepcionais! Temos que atentar para o nosso espírito a cada dia e descobrir a leitura adequada, o remédio apropriado, para aplicar nas diversas fases da nossa vida espiritual. Devemos escolher o nosso material de leitura com muito critério, por amor a nossa própria alma e para ajudar aos outros.

Otdx: Com respeito ao estudo da teologia em si, o que o senhor pode dizer?

Ah, leia teologia sempre! Quanto mais, melhor! Especialmente os clássicos, as grandes obras.

Otdx: O senhor, em algumas ocasiões, falou sobre a importância do estudo da história da igreja. Ela é realmente importante?

O meu ponto de vista é que o cristão deve aprender da história da igreja e deve animar-se a fazê-lo. Para nós, é sempre essencial suplementar a nossa leitura teológica com a leitura da história da Igreja. Se não fizermos isso, podemos cair no erro de sermos meramente abstratos e acadêmicos em nossa visão da verdade, deixando de relacioná-la com os aspectos práticos da vida diária. Gosto bastante de ler biografias e crônicas de homens de Deus, tais como Spurgeon, Whitefield...

Otdx: E sobre apologética?

Leitura apologética é muito importante para nos familiarizarmos com as tendências do pensamento, seja teológico ou filosófico. É importante saber algo sobre o contexto e sobre os pensamentos que influenciam as pessoas, pois a tarefa do pregador consiste em ajudar e proteger as pessoas dos “ventos de doutrina”.

Otdx: O senhor costuma ler algo que não seja especificamente teológico, ou que não se encaixe na chamada “literatura cristã”?

Bom, leituras gerais também são importantes. Se não houver outra razão, que seja pelo descanso mental. Por exemplo, ler boas revistas, história das guerras, ou outro assunto de que você goste. No entanto, não perca muito tempo com isso!

Otdx: Bom, Dr. Lloyd-Jones, muito obrigado pelas suas dicas. Tenho certeza de que elas ajudarão bastantes os pregadores e cristãos em geral. O senhor gostaria de dar um último conselho?

Bom, na verdade, gostaria de deixar dois conselhos. O primeiro deles é: equilibre a sua leitura. Faça um programa para dosar os tipos de leitura: teologia, história da igreja, biografias... Isso é muito proveitoso. Segundo: a finalidade de toda essa leitura não é achar material para o sermão. Não devemos lê-lo, e nem a Bíblia, para arranjar idéias ou arranjar textos. Se fizermos isso, perdemos o alimento espiritual e nos tornamos profissionais. O objetivo de nossas leituras é o alimento e o estímulo geral, para que pensemos com originalidade. Devemos fazer nossas próprias meditações, e não apenas transmitir idéias. O pregador não deve ser um mero canal pelo qual a água flui. Devemos ler e mastigar o que lemos, mas não devemos repetir tudo da maneira como a recebemos, mas comunicar à nossa própria maneira, refletindo, atentando para a necessidade da nossa alma e da igreja.

Por: Saulo R. do Amaral

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Uma palavrinha sobre evangelismo e ensino

‘O evangelho de seu Filho’ não é só evangelização – e eu penso que vocês concordarão que é preciso dar ênfase a isso na presente hora. Creio que atualmente há o real perigo de que todas as energias da Igreja estejam sendo aplicadas à evangelização. Será que alguém vai me entender mal, ou vai pensar que eu estou dizendo que não deveria haver nenhuma evangelização? Estou dizendo exatamente o oposto. Tudo o que eu estou dizendo é que a atividade da Igreja não deve ser unicamente evangelística. Penso que nos dias atuais há o real perigo de que a ênfase à evangelização se torne uma ênfase exclusiva, com a Igreja evangelizando sempre, e ficando nisso. Esse caminho leva à ruína. Não! O evangelho do Filho de Deus começa com a mensagem evangelistica, mas não pára aí. Vai adiante, e ensina – na verdade, o ensino é parte integrante da evangelização. De fato, deixe-me fazer esta colocação – todas as profundas doutrinas da Epístola aos Romanos podem vir sob o título, o “evangelho de seu Filho”. Tudo são as boas novas, do começo ao fim, e nada deve ser deixado fora.

Martyn Lloyd-Jones

(Romanos, Capítulo 1: O Evangelho de Deus; Publicações Evangélicas Selecionadas, 1985; 273-274.)

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Bem Aventurados os Humildes de Espírito

Humildade“Humilde de espírito”. Essa qualidade aponta para a completa ausência do orgulho pessoal, para a completa ausência de segurança própria e auto-dependência. Ela indica a consciência de que nada representamos na presença de Deus. Portanto, não é algo que possamos produzir por nós mesmos; não é algo que possamos fazer de modo próprio. Pelo contrário, é aquela tremenda tomada de consciência de nossa própria nulidade, quando chegamos a enfrentar Deus face a face.

Isso é ser “humilde de espírito”. Quero exprimir essa idéia da maneira mais vigorosa possível, e assim faço com base nos ensinamentos da Bíblia. Ser humilde de espírito significa que, se alguém é crente autêntico, então não está dependendo dos seus dotes naturais, que lhe vêm do berço. Os humildes de espírito não dependem do fato que pertencem a determinadas famílias: não se vangloriam de pertencer a certas raças ou nacionalidades. Essas pessoas também não edificam as suas vidas sobre o alicerce do seu temperamento natural.

Nem acreditam que haja alguma vantagem em sua posição natural na vida, e nem dependem disso ou de quaisquer potencialidades que lhes hajam sido conferidas. A pessoa que é humilde de espírito não depende do dinheiro ou de quaisquer riquezas de que porventura seja possuidora. Se somos humildes de espírito, então não dependemos da educação recebida, nem da escola ou faculdade particular que tivemos freqüentado. Não, porquanto todas essas coisas constituíam aquilo que Paulo apodava de “perda”. Não, pois essas coisas serviam a Paulo apenas de empecilhos para maiores realizações, visto que elas tendiam por dominá-lo e controlá-lo.

Por semelhante modo, não dependeremos de quaisquer dotes naturais de “personalidade”, de inteligência ou de habilidades gerais ou particulares. Não dependeremos, por igual modo, de nossa própria moralidade, conduta ou bom comportamento. Não apelaremos, em nenhum sentido, para a vida que temos vivido ou que estamos tentando viver. Não, mas consideraremos todas as coisas da mesma maneira como Paulo as considerava. É nisso que consiste a “humildade de espírito”.

Precisamos gozar de completa libertação de todas essas coisas, e todas elas precisam estar ausentes de nossas vidas.Repito, ser humilde de espírito é sentir que nada somos, que nada temos, e também que olhamos para Deus em total submissão a Ele, dependendo inteiramente de Sua misericórdia, de Sua graça.

Portanto, façamos a nós mesmos as seguintes perguntas. Pareço com essa descrição? Sou mesmo humilde de espírito? Como é que me sinto a meu respeito, quando penso em termos de Deus e na presença de Deus? Em minha vida diária, quais são as coisas que costumo dizer, sobre o que costumo orar e o que costumo pensar sobre mim mesmo? Assim sendo, que coisa miserável é essa, essa jactância naquilo que é meramente acidental em minha vida, pelo que também não sou responsável; essa jactância naquilo que é artificial, e que nem ao menos será levado em conta no grande dia em que tivermos todos de comparecer diante de Deus. Este meu pobre eu! Aquele hino de Lavater expressa admiravelmente bem essa questão: “Faze que diminua mais e mais este pobre eu”. E também: “Oh Jesus Cristo, cresce mais em mim”.

Estudos no Sermão do Monte: Martyn Lloyd-Jones

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Bem Aventurados os Mansos

MansidãoBem Aventurados os mansos porque herdarão a terra (Mateus 5:5)


(...) No que consiste a mansidão? Penso que poderíamos sumariar a questão da seguinte maneira. A mansidão é, essencialmente, um autêntico ponto de vista que o indivíduo forma de si mesmo, o que é então expresso como uma atitude e uma conduta em relação ao próximo. Por conseguinte, consiste em duas coisas. Trata-se da minha atitude para comigo mesmo; mas também é uma expressão desse fato, em relacionamento com outras pessoas. Percebe-se, pois, quão inevitavelmente a mansidão deriva-se das qualidades de “humildade de espírito” e de “lamentação”.

Ninguém é capaz de ser manso, a menos que também seja humilde de espírito. E ninguém pode ser manso exceto se já se viu como um vil pecador. Essas outras características necessariamente surgem primeiro. Entretanto, se eu já percebi o que realmente sou, em termos de humildade de espírito e de atitude lamentosa, em vista de minha pecaminosidade, então sou levado a ver que é necessário que em mim não se manifeste o orgulho.

O indivíduo manso não se orgulha de si mesmo; não se vangloria a seu próprio respeito sob hipótese alguma. Pois sente que em si mesmo coisa existe que possa gabar-se. E também se deve entender que ele não faz valer seu direito. Como você deve estar percebendo, isso é uma negação daquela psicologia popular de nossos dias que nos recomenda “impor-nos aos outros” e expressarmos a nossa personalidade.

Aquele que é manso não quer fazer essas coisas; antes, envergonha-se delas. Por semelhante modo, o indivíduo que é manso não exige coisa alguma para si mesmo. Não considera todos os seus legítimos direitos como algo a ser exigido. Não faz exigências quanto à sua posição, aos seus privilégios, às suas possessões e à sua situação na vida. Não, mas assemelha-se ao homem retratado pelo apóstolo Paulo em Filipenses 2: “Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus” (vers. 5). Cristo não asseverou o Seu direito de igualdade com Deus; deliberadamente Ele não o fez. E você e eu temos que chegar a este ponto.

(...) Você deve estar lembrado de como Pedro exprimiu essa idéia em I Pedro 2, dizendo que nos cumpre seguir os passos de Cristo, “... o qual não cometeu pecado nem dolo algum se achou em sua boca, pois ele, quando ultrajado, não revidava com ultraje, quando maltratado, não fazia ameaças, mas entregava-se àquele que julga retamente” (I Pedro 2: 22,23). Ser manso é usar de paciência e longanimidade, mesmo quando sofremos injustamente. Naquele capítulo, Pedro argumentou que não há vantagem alguma quando somos castigados por causa das nossas falhas, e então recebemos o castigo com paciência; entretanto, se praticamos o bem, e mesmo assim sofremos por causa disso, com toda a paciência, então isso é digno de encômios aos olhos de Deus.

Ora, isso é mansidão. Mas, além disso, ser manso significa que estamos dispostos a ouvir e a aprender; que fazemos tão pequena idéia de nós mesmos e de nossas capacidades que estamos prontos a dar ouvidos aos nossos semelhantes. E acima de tudo, devemos estar prontos a deixar-nos ensinar pelo Espírito, a deixar-nos guiar pelo próprio Senhor Jesus Cristo.

Martin Lloyd-Jones - Estudos no Sermão do Monte

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