sábado, 29 de novembro de 2008

Monergismo e Sinergismo, resumidamente

(...) Sinergismo está relacionado com a doutrina da regeneração ou novo nascimento como descrita em João capítulo 3. Um monergista é alguém que crê que Deus o Espírito Santo sozinho opera a obra da regeneração que abre os olhos cegos, abre os ouvidos surdos e torna o coração de pedra num coração de carne. O sinergista, por outro lado, crê que a fé é produzida pela nossa natureza humana NÃO-REGENERADA...que um homem natural pode exercer fé aparte da regeneração do Espírito Santo (uma posição que todos dos grupos listados acima compartilham em comum). A crença que estamos promovendo aqui, que cremos ser bíblica, é a do monergismo, ou seja, que ninguém pode dizer 'Jesus é Senhor' senão pelo Espírito Santo...que todos que o Pai dá a Cristo virão a Ele (João 6:37) e que ninguém vem a Cristo a menos que o Pai lhe traga (João 6:63-65)...Assim, a Escritura está dizendo claramente nessas passagens o seguinte: Ninguém pode crer no evangelho a menos que Deus lhe conceda isso e TODOS a quem isso for concedido, crerão — fazendo a graça de Deus tanto invencível como indelével. 2 Timóteo 2:25 também diz que é Deus quem concede o arrependimento. Ele não é algo que o homem natural tem o desejo de praticar, pois João 3:20 diz que o homem natural “ama as trevas e odeia a luz, e não vem para a luz”. Mas aqueles que vêm para a luz mostram que isso é uma obra operada por Deus. Nós amamos a Deus porque Ele nos amou primeiro. É Paulo quem planta e Apolo quem rega, mas é Deus quem faz crescer. Quando pregamos o evangelho às pessoas, podemos pregar até que fiquemos sem fôlego e ninguém responderá ATÉ que Cristo os liberte da sua escravidão à corrupção da natureza. Deixados a si mesmos os homens sempre rejeitarão a Cristo. É necessária uma obra especial da graça sobrenatural para remover a hostilidade do homem. Assim, nós espalhamos a semente do Evangelho na pregação, mas o Espírito Santo germina a semente, por assim dizer, se esse homem há de responder. (...)

Extraído do site Monergismo

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Ficou magoado?

“Acho que quando alguém nos ‘magoa’ é preciso relembrar que, de 100 casos, 99 pretendiam nos magoar muito menos ou nem pretendiam, e quase sempre nem percebem nada disso. Aprendi isso nos casos em que eu era o "magoador". Nas ocasiões em que fiquei realmente irado e cruel, com a intenção de machucar, a outra parte nem ligou ou nem sequer percebeu. Mas quando eu descobria que havia magoado alguém, percebia também que o gesto fora inconsciente de minha parte. Aliás, detesto pessoas ‘sensíveis’, que se "magoam com facilidade". Elas são uma praga social. Concorda? Em geral, o verdadeiro problema é a vaidade.”

C.S. Lewis

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Os Dez Mandamentos e os princípios do direito hebraico

Continuamos nosso estudo a respeito do Direito e a Bíblia, fazendo uma abordagem a respeito dos Dez Mandamentos. Eles estão presentes em dois momentos do Pentateuco: Êxodo, cap. 20, vv. 2-17; Deuteronômio, cap. 5, vv. 6-21. Textualmente, reproduzimos aqui o quanto contido em Êxodo:

1. Eu sou o SENHOR teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão. Não terás outros deuses diante de mim.

2. Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não te encurvarás a elas nem as servirás; porque eu, o SENHOR teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniqüidade dos pais nos filhos, até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam. E faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos.

3. Não tomarás o nome do SENHOR teu Deus em vão; porque o SENHOR não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão.

4. Lembra-te do dia do sábado, para o santificar. Seis dias trabalharás, e farás toda a tua obra. Mas o sétimo dia é o sábado do SENHOR teu Deus; não farás nenhuma obra, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o teu estrangeiro, que está dentro das tuas portas. Porque em seis dias fez o SENHOR os céus e a terra, o mar e tudo que neles há, e ao sétimo dia descansou; portanto abençoou o SENHOR o dia do sábado, e o santificou.

5. Honra a teu pai e a tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o SENHOR teu Deus te dá.

6. Não matarás.

7. Não adulterarás.

8. Não furtarás.

9. Não dirás falso testemunho contra o teu próximo.

10. Não cobiçarás a casa do teu próximo, não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo”.

Até hoje muitas pessoas têm a impressão de que somente há essas disposições na Bíblia que poderiam ter alguma aproximação com o jurídico, mas com a leitura do Pentateuco poderemos concluir que, na verdade, esses enunciados constituem princípios que foram seguido na formulação das leis em Israel. E que vários deles continuam valendo como princípios universais (ou no mínimo, como conteúdo ético) nos mais diversos sistemas jurídicos, inclusive o brasileiro.

Somente a título de ilustração, vale a pena beber um pouco da sabedoria do mestre Paulo Nader, que em seu livro “Introdução ao Estudo do Direito” nos traz à colação a idéia de que o princípio é um enunciado que é o ponto de partida para a composição de um ato legislativo. O legislador escolhe, seleciona os “valores e princípios que se quer consagrar, que se deseja infundir no ordenamento jurídico”. O mestre arremata afirmando que “a qualidade da lei depende, entre outros fatores, dos princípios escolhidos pelo legislador. O fundamental, tanto na vida quanto no Direito, são os princípios, porque deles tudo decorre. Se os princípios não forem justos, a obra legislativa não poderá ser justa”.

Desta maneira, ao proclamar os mandamentos dados por Deus no Monte Sinai (não podemos nos esquecer que, em todos os povos daquela época, o direito não é nada mais que uma das faces da religião), Moisés inicia uma longa jornada legislativa que vai declinar as normas jurídicas da nação em formação.

Um exemplo pode ser dado no princípio “não matarás”. Citemos os versículos 12 a 15 do Capítulo 21 de Êxodo, que inclusive faz distinção entre homicídio doloso e culposo: “Quem ferir alguém, de modo que este morra, certamente será morto. Porém se lhe não armou cilada, mas Deus lho entregou nas mãos, ordenar-te-ei um lugar para onde fugirá [referência às cidades de refúgio]. Mas se alguém agir premeditadamente contra o seu próximo, matando-o à traição, tirá-lo-ás do meu altar, para que morra. O que ferir a seu pai, ou a sua mãe, certamente será morto [parricídio e matricídio]”. Mas Moisés também fixou excludentes de ilicitude, como esse contido no capítulo 22, versículo 2: “Se o ladrão for achado roubando, e for ferido, e morrer, o que o feriu não será culpado do sangue”. Achamos ainda no Deuteronômio, capítulo 19, um exemplo do homicídio involuntário, o qual não é passível de punição, devendo o autor ser protegido em uma “cidade de refúgio”, local destinado à proteção daqueles que cometiam o homicídio com total ausência de culpa: “Três cidades separarás, no meio da terra que te dará o SENHOR teu Deus para a possuíres. Preparar-te-ás o caminho; e os termos da tua terra, que te fará possuir o SENHOR teu Deus, dividirás em três; e isto será para que todo o homicida se acolha ali. E este é o caso tocante ao homicida, que se acolher ali, para que viva; aquele que por engano ferir o seu próximo, a quem não odiava antes; Como aquele que entrar com o seu próximo no bosque, para cortar lenha, e, pondo força na sua mão com o machado para cortar a árvore, o ferro saltar do cabo e ferir o seu próximo e este morrer, aquele se acolherá a uma destas cidades, e viverá; Para que o vingador do sangue não vá após o homicida, quando se enfurecer o seu coração, e o alcançar, por ser comprido o caminho, e lhe tire a vida; porque não é culpado de morte, pois o não odiava antes. Portanto te dou ordem, dizendo: Três cidades separarás”.

Outras normas há que regulamentam estes princípios, a exemplo do apedrejamento do filho rebelde (Deuteronômio 21:18-21); leis acerca do adultério e do estupro (inclusive presumido) – Deuteronômio 22:20-30); a pena de talião para a falsa testemunha (Deuteronômio 19:18-21).

Guilhardes de Jesus Júnior é Professor de História do Direito da FTC, Professor da UESC e da Faculdade Madre Thaís. Membro da Igreja Batista Memorial de Ilhéus, onde também é professor de Escola Bíblica Dominical.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Somos servos

Nós somos servos. Possamos sempre reconhecer nosso lugar e guardá-lo! O lugar mais alto na igreja sempre virá para o homem que voluntariamente escolhe o mais baixo. Enquanto ele aspira ser grande entre seus irmãos, declina até chegar a ser o menor de todos. Certos homens poderiam ter sido alguma coisa se já não se tivessem julgado ser isso. Um homem que conscientemente se acha grande, com certeza é pequeno. Aquele que se considera senhor da herança de Deus é um vil usurpador. Aquele que em seu coração e alma está sempre pronto a servir o menos importante da família, que espera que outros tirem vantagem dele e está disposto a sacrificar o bom nome e a amizade por amor a Cristo, este cumprirá um ministério enviado dos céus. Não somos enviados para ser servidos, mas para servir, para ministrar. Cantemos ao Bem-Amado:

Não há um cordeiro em todo teu rebanho,
Que eu desprezaria alimentar;
Não há um inimigo diante de cuja face
Eu temeria tua causa defender.

C. H. Spurgeon

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Outro Evangelho

[...] Satanás é um arquiimitador. Ele está agora em atividade no mesmo campo em que o Senhor Jesus semeou a boa semente. O diabo está procurando impedir o crescimento do trigo, utilizando-se de outra planta, o joio, que em aparência se assemelha muito ao trigo. Em resumo, por meio de um processo de imitação, Satanás está almejando neutralizar a obra de Cristo. Portanto, assim como Cristo tem um evangelho, Satanás também possui um evangelho, que é uma imitação sagaz do evangelho de Cristo. O evangelho de Satanás se parece tanto com aquele que procura imitar, que multidões de pessoas não-salvas são enganadas por este evangelho.

O apóstolo Paulo se referiu a este evangelho, quando disse: “Admira-me que estejais passando tão depressa daquele que vos chamou na graça de Cristo para outro evangelho, o qual não é outro, senão que há alguns que vos perturbam e querem perverter o evangelho de Cristo” (Gl 1.6,7). Este falso evangelho estava sendo proclamado mesmo nos dias do apóstolo, e uma terrível maldição foi lançada sobre aqueles que o pregavam. O apóstolo continuou: “Mas, ainda que nós ou mesmo um anjo vindo do céu vos pregue evangelho que vá além do que vos temos pregado, seja anátema” (v. 8). Com a ajuda de Deus, nos esforçaremos para explicar, ou melhor, para desmascarar este falso evangelho.

O evangelho de Satanás não é um sistema de princípios revolucionários, nem mesmo um programa de anarquia. Este evangelho não promove conflitos ou guerras, mas tem como alvo a paz e a unidade. Não procura colocar a mãe contra a filha, nem o pai contra o filho; ao invés disso, ele fomenta o espírito de fraternidade pelo qual a raça humana é considerada uma grande “irmandade”.

Este evangelho não procura mortificar o homem natural, e sim aprimorá-lo e enaltecê-lo. O evangelho de Satanás defende a educação e a instrução, apelando ao “melhor que há no íntimo do ser humano”; tem como alvo fazer deste mundo um habitat tão confortável e agradável, que a ausência de Cristo não será sentida e Deus não será necessário. O evangelho de Satanás se esforça para manter o homem tão ocupado com as coisas deste mundo, que não tem ocasião nem inclinação para pensar no mundo por vir. Este evangelho propaga os princípios do auto-sacrifício, da caridade e da benevolência, ensinando-nos a viver para o bem dos outros e sermos bondosos para todos. Apela fortemente à mentalidade carnal, tornando-se popular entre as massas, porque ignora os solenes fatos de que, por natureza, o homem é uma criatura caída, está alienado da vida de Deus, morto em delitos e pecados, e de que a única esperança se encontra em ser nascido de novo.

Em distinção ao evangelho de Cristo, o evangelho de Satanás ensina que a salvação se realiza por meio das obras; incute na mente das pessoas a idéia de que a justificação diante de Deus ocorre com base nos méritos humanos. A frase sagrada do evangelho de Satanás é: “Seja bom e faça o bem”; mas falha em reconhecer que na carne não habita bem algum. O evangelho de Satanás anuncia uma salvação que se realiza por meio do caráter, uma salvação que é o reverso da ordem estabelecida por Deus, em sua Palavra — o caráter se manifesta como fruto da salvação.

As ramificações e organizações deste evangelho são multiformes. Temperança, movimentos de reforma, associações de cristãos socialistas, sociedades de cultura ética, congressos sobre a paz, todas estas coisas são empregadas (talvez inconscientemente) em proclamar este evangelho de Satanás — a salvação pelas obras.

Cristo é substituído pelo cartão de apelo; o novo nascimento do indivíduo é trocado pela pureza social; e a doutrina e a piedade são substituídas por filosofia e política. A cultivação do velho homem é considerada mais prática do que a criação de um novo homem em Cristo Jesus, enquanto a paz universal é procurada sem a interposição e o retorno do Príncipe da Paz. [...]

Arthur W. Pink
Leia o texto completo no site Monergismo.com
Extraído do blog Voltemos ao Evangelho

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

A unidade de Deus

Ao contrário dos seres humanos, Deus não é dividido em partes, mas existe como um todo eterno com todos os seus atributos como uno e inseparável. Algumas vezes isso é chamado simplicidade, visto que Deus não é complexo, ou dividido em partes.

Ainda que certa porção bíblica enfatize um atributo divino específico, isso não significa total separação dos atributos divinos, que um atributo às vezes passe por cima de outro, que um seja mais importante que outro, ou que um expresse mais estritamente a essência de Deus que outro. A Escritura nos mostra que Deus é seus atributos: 1 João 1.5 diz: “Deus é luz”, e 1 João 4.16: “Deus é amor”. Logo, Deus não é um ser que tem amor e luz por atributos, ou vice-versa; antes, ele é amor e luz, bem como os outros atributos. Não devemos pensar em Deus e enfatizar certo atributos em um período histórico.

Mesmo alguns cristãos pensam que Deus era cheio de ira no Antigo Testamento, mas misericordioso no Novo. Contudo, é no primeiro que se diz: “O seu amor dura para sempre” (Sl 136), e é no segundo que está que “terrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo!” (Hb 10:31). A unidade divina significa que ele é amoroso e justo em todos os tempos. Ele é sempre misericordioso para com seus eleitos e cheio de cólera para com os réprobos, seja no Antigo ou no Novo Testamento.

Vincent Cheung, Introdução à Teologia Sistemática, Ed. Arte Editorial

O que pede de ti o Eterno, teu Deus?

O caminho dos justos“E agora, ó Israel, o que pede de ti o Eterno, teu Deus? Senão que O temas, que Andes por Seus caminhos, ames e O sirvas, com todo o teu coração e com toda a tua alma; que guardes Seus mandamentos e Seus estatutos...” (Deut. 10:12,13).

Nesta frase se encontram todos os aspectos da perfeição no serviço Divino, realmente apropriados em relação ao Santíssimo, louvado seja. Ou seja: temer a Deus, caminhar por Seus caminhos, dedicar-lhe amor e devoção e cumprir Seus mandamentos (Mitsvot).

O “temor a Deus” denota o temor à Majestade do Santíssimo; teme-Lo como temer-se-ia um poderoso rei, anulando-se a cada momento ante Sua grandiosidade, especialmente ao falar em Sua presença em oração ou ao engajar-se no estudo de Sua Torá.

“Trilhar Seus caminhos” engloba tudo que está relacionado com o desenvolvimento e a correção dos predicados de caráter. Nossos Sábios, de abençoada memória, nos explicaram: “Assim como Ele é misericordioso, sede também misericordiosos...”. A essência desta frase sugere que devemos moldar nossas virtudes e características, bem como pautar todas as nossas ações por princípios de ética e justiça. Eles assim resumiram esta idéia (Avot 2,1): “Que caminho deve ser escolhido pelo homem? O que é, em si, digno a quem o pratica e conduz os outros a exaltar seu louvor...” ou seja, tudo o que conduz ao que é intrinsecamente bom, isto é, ao fortalecimento na Torá e ao desenvolvimento do sentimento de fraternidade.

“Amor” – Que amor pelo Eterno seja implantado no coração de cada um, para que se eleve sua alma e busque fazer o que agrada ao Santíssimo, assim como seu coração anseia por agradar seu pai e sua mãe. Zeloso será por este amor, regozijar-se-á por realizá-lo com plenitude, e sentir-se-á frustrado ante sua ausência.

“Devoção” – que o serviço ao Eterno seja caracterizado pela pureza de intenção, e que sua finalidade seja somente servi-Lo e nada mais. Que seu coração esteja inteiramente devotado ao serviço Divino, sem que seja mecânica sua observância ou dividida sua atenção.

O “cumprimento das Mitsvot, como está explícito, é o cumprimento de todo o conjunto das Mitsvot, com todos os seus conteúdos, derivações e condições.

Possa o Eterno acolher com benevolência nossas aspirações e afastar os obstáculos que se possam antepor em nosso caminho para que em nós sejam atendidas as súplicas do Salmista, encantado pelo amor ao Eterno (Salmos 86:11): “Ensina-me Teu caminho, ó Eterno, para que eu possa andar sob Tua verdade e dedicar meu coração a temer somente Teu Nome”. Amen.

Moshe Chayim Luzzatto - (1707–1746).

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Lembrai-vos da Mulher de Ló (Lc 17:32)

Há poucas advertências na Escritura mais solenes que esta. O Senhor Jesus Cristo nos diz, "Lembrai-vos da mulher de Ló."

A esposa de Ló professava a verdadeira religião: seu marido era um "homem íntegro" (2 Pedro 2:8). Ela deixou Sodoma com ele no dia da sua destruição; ela olhou para trás, em direção a cidade, em desobediência a ordem expressa de Deus; ela morreu imediatamente, transformando-se em uma estátua de sal. E o Senhor Jesus Cristo a utiliza como exemplo para Sua igreja; Ele diz: "Lembrai-vos da mulher de Ló".

É uma advertência solene, quando consideramos a pessoa que Jesus menciona. Ele não nos convida a lembrar de Abraão, ou Isaque, ou Jacó, ou Sara, ou Ana, ou Rute. Não! Ele escolhe alguém cuja alma estava perdida para sempre. Ele clama a nós: "Lembrai-vos da mulher de Ló".

É uma advertência solene, quando nós consideramos sobre o tema de Jesus. Ele está falando da Sua segunda vinda, quando virá julgar o mundo; Ele está descrevendo o estado terrível de despreparo no qual muitos serão achados. Os últimos dias estão na Sua mente, quando Ele nos diz: "Lembrai-vos da mulher de Ló".

É uma advertência solene, quando nós pensamos na Pessoa que a faz. O Senhor Jesus é amoroso, misericordioso e compassivo; Ele é Aquele que "não esmagará a cana quebrada nem apagará a torcida que fumega"(Is.42:3). Ele lamentou a incredulidade de Jerusalém e orou pelos homens que O crucificaram; contudo, Ele julga proveitoso nos dar esta advertência solene e nos fazer lembrar das almas perdidas. Ele nos diz: "Lembrai-vos da mulher de Ló".

É uma advertência solene, quando nós pensamos nas pessoas para as quais Ele, primeiramente, dirigiu estas palavras. O Senhor Jesus estava falando aos Seus discípulos; Ele não estava falando para os escribas e fariseus que o odiaram, mas a Pedro, Tiago e João, e muitos outros que O amaram; mesmo para esses, Ele julga proveitoso uma palavra de precaução. Ele os diz: "Lembrai-vos da mulher de Ló".

É uma advertência solene, quando nós consideramos a maneira que Ele falou. Ele não diz somente: "Cuidado! Não sejam como a mulher de Ló". Ele usa uma palavra diferente; Ele diz: "Lembrai-vos". Ele fala como se nós corrêssemos o perigo de esquecer o assunto; Ele incita nossas memórias preguiçosas; Ele nos ordena a manter o caso em nossas mentes. Ele clama: "Lembrai-vos da mulher de Ló".

Agora, consideremos os privilégios religiosos que a esposa de Ló desfrutou.

Nos dias de Abraão e Ló, a verdadeira religião salvadora era escassa na terra; não havia ainda a Bíblia, pastores, igrejas, credos ou mesmo missionários. O conhecimento de Deus estava limitado a algumas famílias agraciadas; a maior parte dos habitantes do mundo estava vivendo em escuridão, ignorância, superstição e pecado. Talvez não houvesse um em cem, que contasse com tal bom exemplo, ou com tal convivência espiritual, tal clareza de conhecimento e advertências tão claras como a esposa de Ló. Comparada com os milhões de criaturas do seu tempo, a esposa de Ló era uma mulher agraciada.

Ela teve um homem religioso como marido; ela teve Abraão, o pai da fé, como tio através do matrimônio. A fé, o conhecimento e as orações destes dois homens íntegros não poderiam ter sido desconhecidos dela. É impossível que ela pudesse ter morado em tendas com eles durante tanto tempo, sem saber de Quem eles eram e a Quem eles serviam. Religião para eles não era nenhum negócio formal; era o princípio governante das suas vidas e a razão de suas ações. Tudo isso a esposa de Ló deve ter visto e conhecido. Este não era um pequeno privilégio.

Quando Abraão recebeu as promessas, a esposa de Ló provavelmente estava lá. Quando ele construiu sua tenda entre Ai e Betel, é provável que ela estivesse presente ...; quando os anjos vieram a Sodoma e advertiram seu marido para fugir, ela os viu; quando eles os levaram pela mão e os conduziram para fora da cidade, ela era um daqueles que eles ajudaram a escapar. Mais uma vez, eu digo, estes não foram privilégios pequenos.

Contudo, quais foram os resultados positivos, de todos estes privilégios, no coração da esposa de Ló? Nenhum, nada. Apesar de todas as oportunidades e meios de graça, todas as advertências especiais e mensagens do céu, ela viveu e morreu sem a graça de Deus, sem Deus, impenitente e descrente. Os olhos do seu entendimento nunca foram abertos; sua consciência nunca foi realmente despertada ou estimulada; sua vontade nunca foi verdadeiramente trazida a um estado de obediência a Deus; suas afeições nunca foram fixadas nas coisas lá do alto. A forma de religião que ela teve foi mantida por conveniência e não por um verdadeiro sentir; era uma capa usada para agradar a seu marido, e não por qualquer senso de seu valor. Ela fez como outros ao redor dela na casa de Ló: ela se conformou aos costumes do seu marido; ela não fez nenhuma oposição à religião dele; ela se permitiu ser conduzida passivamente por ele; mas em todo tempo o seu coração estava em pecado diante de Deus. O mundo estava no seu coração, e o seu coração estava no mundo. Neste estado ela viveu, e neste estado ela morreu.

Em tudo isso há muito a ser aprendido. Eu vejo uma lição aqui que é da maior importância nos nossos dias. Você vive em tempos em que há muitas pessoas vivendo igual a esposa de Ló. Ouça pois, a lição que o caso dela nos ensina.

Aprenda que a mera possessão de privilégios religiosos não salvarão a alma de ninguém. Você pode ter vantagens espirituais de todo tipo; você pode viver e gozar das mais ricas oportunidades e meios de graça; você pode desfrutar da melhor pregação e das instruções mais verdadeiras; você pode morar no meio da luz, conhecimento, santidade e boa companhia. Tudo isso é possível; contudo, você ainda pode permanecer não convertido, e estar perdido para sempre.

Eu ouso dizer que esta doutrina parece dura a alguns leitores. Eu conheço a idéia de que eles não querem nada mais do que privilégios religiosos para decidirem ser cristãos. Eles não são o que eles devem ser no momento, eles concordam; mas a posição deles é tão difícil, eles argumentam, e suas dificuldades são tantas. Dê-lhes um cônjuge crente, ou amizades cristãs, ou um patrão crente; dê a eles a pregação do Evangelho, os privilégios, e então eles caminharão com Deus.

Tudo engano! Uma completa ilusão! Para salvar almas, é requerido muito mais do que privilégios. Joabe era o capitão de Davi; Geazi era o criado de Eliseu; Demas era companheiro de Paulo; Judas Iscariotes era discípulo de Cristo; e Ló teve uma esposa mundana e incrédula. Todos eles morreram em seus pecados. Eles baixaram à cova apesar do conhecimento, advertências e oportunidades; e todos eles nos ensinam que os homens necessitam não só de privilégios. Eles precisam da graça do Espírito Santo.

Vamos valorizar nossos privilégios religiosos, mas não vamos descansar completamente neles.
Vamos desejar ter o benefício deles em nossas atividades, mas não vamos colocá-los no lugar de Cristo. Vamos usá-los com gratidão, se Deus no-los der, mas nos preocupemos em que eles produzam algum fruto em nosso coração e vida. Se eles não produzem o bem, eles seguramente causarão dano; eles cauterizarão a consciência, eles aumentarão a responsabilidade, eles agravarão a condenação. O mesmo fogo que derrete a cera endurece o barro; o mesmo sol que faz a árvore vivente crescer, seca a árvore morta e a prepara para queimar. Nada endurece mais o coração do homem, do que uma familiaridade estéril com as coisas sagradas. Mais uma vez eu digo, não são somente os privilégios que fazem as pessoas cristãs, mas a graça do Espírito Santo. Sem isso, nenhum homem jamais será salvo.

Eu peço aos que lêem esta mensagem hoje, que considerem bem o que eu estou dizendo.
Você vai para a Igreja do sr. A ou B; você o considera um pregador excelente; você se deleita com seus sermões; você não pode ouvir nenhum outro com o mesmo conforto; você aprendeu muitas coisas desde que você começou a participar do seu ministério; você considera um privilégio ser um dos seus ouvintes. Tudo isso é muito bom. É um privilégio. Eu seria grato se ministros como o seu fossem multiplicados. Mas, afinal de contas, o que você recebeu no seu coração? Você já recebeu o Espírito Santo? Se não, você não é melhor que a esposa de Ló.

Eu peço para os filhos de pais crentes que gravem bem o que eu estou dizendo.
Ser filhos de pais crentes é o mais elevado dos privilégios, pois torna-se o alvo de tantas orações. Realmente é uma bênção aprender o Evangelho na nossa infância, e ouvir falar de pecado, de Jesus, e do Espírito Santo, e santidade, e céu, desde o primeiro momento que podemos lembrar. Mas, cuidado para que vocês não permaneçam estéreis e infrutíferos no meio de todos estes privilégios; precavenham-se para que seus corações não permaneçam duros, impenitentes e mundanos, sem se quebrantar às muitas vantagens que vocês desfrutam. Vocês não poderão entrar no reino de Deus pelo crédito de seus pais. Vocês próprios têm que comer o Pão da Vida e ter o testemunho do Espírito nos seus próprios corações. Vocês têm que ter arrependimento próprio, fé própria e sua própria santificação. Se não, vocês não serão melhor que a esposa de Ló.

Eu peço a Deus que todos os cristãos professos destes dias possam aplicar estas coisas aos seus corações. Que nós nunca esqueçamos que os privilégios sozinhos, não podem nos salvar. Luz e conhecimento, pregações fiéis, meios abundantes de graça e a companhia de pessoas santas são todos grandes bênçãos e vantagens. Feliz aqueles que os tem! Mas no final de tudo, há uma coisa sem a qual privilégios são inúteis: a graça do Espírito Santo. A esposa de Ló teve muitos privilégios; mas não teve a graça de Deus em seu coração.

Por J.C. Ryle

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Crente fica doente?

Creio em milagres. Creio que Deus cura hoje em resposta às orações de seu povo. Durante meu ministério pastoral, tenho orado por pessoas doentes que ficaram boas. Contudo, apesar de todas as orações, pedidos e súplicas que os crentes fazem a Deus quando ficam doentes, é um fato inegável que muitos continuam doentes e eventualmente, chegam a morrer acometidos de doenças e males terminais.

Uma breve consulta feita à Capelania Hospitalar de grandes hospitais de algumas capitais do nosso país revela que há números elevados de evangélicos hospitalizados por todos os tipos de doença que acometem as pessoas em geral. A proporção de evangélicos nos hospitais acompanha a proporção de evangélicos no país. As doenças não fazem distinção religiosa.

Para muitos evangélicos, os crentes só adoecem e não são curados porque lhes falta fé em Deus. Todavia, apesar do ensino popular que a fé nos cura de todas as enfermidades, os hospitais e clínicas especializadas estão cheias de evangélicos de todas as denominações – tradicionais, pentecostais e neopentecostais –, sofrendo dos mais diversos tipos de males. Será que poderemos dizer que todos eles – sem exceção – estão ali porque pecaram contra Deus, ficaram vulneráveis aos demônios e não têm fé suficiente para conseguir a cura?

É nesse ponto que muitos evangélicos que adoeceram, ou que têm parentes e amigos evangélicos que adoeceram, entram numa crise de fé. Muitos, decepcionados com a sua falta de melhora, ou com a morte de outros crentes fiéis, passam a não crer mais em nada e abandonam as suas igrejas e o próprio Evangelho. Outros permanecem, mas marcados pela dúvida e incerteza. Eu gostaria de mostrar nesse post, todavia, que mesmo homens de fé podem ficar doentes, conforme a Bíblia e a História nos ensinam.

1. Há diversos exemplos na Bíblia de homens de fé que adoeceram. Ao lermos a Bíblia como um todo, verificamos que homens de Deus, cheios de fé, ficaram doentes e até morreram dessas enfermidades. Um deles foi o próprio profeta Eliseu. A Bíblia diz que ele padeceu de uma enfermidade que finalmente o levou a morte: “Estando Eliseu padecendo da enfermidade de que havia de morrer” (2Re 13.14). Outro, foi Timóteo. Paulo recomendou-lhe um remédio caseiro por causa de problemas estomacais e enfermidades freqüentes: “Não continues a beber somente água; usa um pouco de vinho, por causa do teu estômago e das tuas freqüentes enfermidades” (1Tm 5.23).

Ao final do seu ministério, Paulo registra a doença de um amigo que ele mesmo não conseguiu curar: “Erasto ficou em Corinto. Quanto a Trófimo, deixei-o doente em Mileto” (2Tm 4.20).

O próprio Paulo padecia do que chamou de “espinho na carne”. Apesar de suas orações e súplicas, Deus não o atendeu, e o apóstolo continuou a padecer desse mal (2Co 12.7-9). Alguns acham que se tratava da mesma enfermidade da qual Paulo padeceu quanto esteve entre os Gálatas: “a minha enfermidade na carne vos foi uma tentação, contudo, não me revelastes desprezo nem desgosto” (Gl 4.14). Alguns acham que era uma doença nos olhos, pois logo em seguida Paulo diz: “dou testemunho de que, se possível fora, teríeis arrancado os próprios olhos para mos dar” (Gl 4.15). Também podemos mencionar Epafrodito, que ficou gravemente doente quando visitou o apóstolo Paulo: “[Epafrodito] estava angustiado porque ouvistes que adoeceu. Com efeito, adoeceu mortalmente; Deus, porém, se compadeceu dele e não somente dele, mas também de mim, para que eu não tivesse tristeza sobre tristeza” (Fp 2.26-27).

Temos ainda o caso de Jó, que mesmo sendo justo, fiel e temente a Deus, foi afligido durante vários meses por uma enfermidade, que a Bíblia descreve como sendo infligida por Satanás com permissão de Deus: “Então, saiu Satanás da presença do Senhor e feriu a Jó de tumores malignos, desde a planta do pé até ao alto da cabeça. Jó, sentado em cinza, tomou um caco para com ele raspar-se” (Jó 2.7-8). O grande servo de Deus, Isaque, sofria da vista quando envelheceu, a ponto de não saber distinguir entre Jacó e Esaú: “Tendo-se envelhecido Isaque e já não podendo ver, porque os olhos se lhe enfraqueciam” (Gn 27.1). Esses e outros exemplos poderiam ser citados para mostrar que homens de Deus, fiéis e santos, foram vitimados por doenças e enfermidades.

2. O mesmo ocorre na História da Igreja. Nem mesmo cristãos de destaque na história da Igreja escaparam das doenças e dos males. João Calvino era um homem acometido com freqüência de várias enfermidades. Mesmo aqueles que passaram a vida toda defendendo a cura pela fé também sofreram com as doenças. Alguns dos mais famosos acabaram morrendo de doenças e enfermidades. Um deles foi Edward Irving, chamado o pai do movimento carismático. Pregador brilhante, Irving acreditava que Deus estava restaurando na terra os dons apostólicos, inclusive o da cura divina. Ainda jovem, contraiu uma doença fatal. Morreu doente, sozinho, frustrado e decepcionado com Deus.

Um outro caso conhecido é o de Adoniran Gordon, um dos principais líderes do movimento de cura pela fé do século passado. Gordon morreu de bronquite, apesar da sua fé e da fé de seus amigos. A. B. Simpson, outro líder do movimento da cura pela fé, morreu de paralisia e arteriosclerose. Mais recentemente, morreu John Wimber, vitimado por um câncer de garganta. Wimber foi o fundador da igreja Vineyard Fellowship (“A Comunhão da Vinha ou Videira”) e do movimento moderno de “sinais e prodígios”. Ele, à semelhança de Gordon e Simpson, acreditava que pela fé em Cristo, o crente jamais ficaria doente. Líderes do movimento de cura pela fé no Brasil também têm ficado doentes. Não poucos deles usam óculos, para corrigir defeitos na vista e até têm defeito físico nas mãos.

O meu ponto aqui é que cristãos verdadeiros, pessoas de fé, eventualmente adoeceram e morreram de enfermidades, conforme a Bíblia e a História claramente demonstram. O significado disso é múltiplo, desde o conceito de que as doenças nem sempre representam falta de fé até o fato de que Deus se reserva o direito soberano de curar quem ele quiser.

Augustus Nicodemus

Extraído do site O Tempora, O Mores!

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

O perigo em ser um cristão de classe média cheio de conforto

A Bíblia é muito clara ao dizer em 1 Timóteo 6:9 que exercitar a piedade como um meio de ganho - ganho financeiro - é mortal; e a mortalidade disso está no desejo de ser rico. O texto diz para não desejar ser rico, porque “os que querem ficar ricos caem em tentação, e cilada, e em muitas concupiscências insensatas e perniciosas, as quais afogam os homens na ruína e perdição.” Em outras palavras, é suicídio querer ser rico.

Um dos principais perigos em ficarmos confortáveis em nosso cristianismo é que com o passar do tempo esse conforto tende a parecer com algo que Deus - ou o mundo - nos deve; e o que nós chamávamos de "luxo" antes passa a ser chamado de “necessidade” agora. Cada vez mais nós queremos coisas, e segurança, e conforto. E até mesmo as nossas conversas com as pessoas tendem para assuntos tais como alguma coisa nova, especial, que acabamos de comprar e deixamos de falar na linguagem do Reino. É um tipo de gangrena progressiva com um rosto sorridente que corrói o coração do Reino.

Quando Jesus disse em Mateus 6:31-33 - “não vos inquieteis, dizendo: Que comeremos? Que beberemos? Ou: Com que nos vestiremos? Porque os gentios é que procuram todas estas coisas; pois vosso Pai celeste sabe que necessitais de todas elas; buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas.” - ele estava nos alertando para que não entrássemos em uma condição em que estivéssemos nos afogando em coisas. Em outras palavras: “Entreguem-se a energias mentais e emocionais que dizem respeito aos assuntos do Reino, e deixem comida, vestes e bebida cuidarem de si mesmos.” E parece que nós entendemos isso quase que completamente às avessas.

Nós nos envolvemos em situações em que ficamos falando sobre o que nós vestimos, e sobre comida e brinquedos e casas, e só de vez em quando um assunto do Reino surge e Cristo entra na conversa. Eu penso que Jesus é afligido por isso e gostaria que nós invertêssemos as coisas.

Fale sobre Cristo, e missões, e ministério, e sobre produzir um impacto para Jesus. Oh sim, você precisa de um lugar para morar. Certamente você precisa de um meio para ir de um lugar para outro. É claro que provavelmente você precisa de um computador nestes dias, de forma que você possa se comunicar através de e-mail. Mas deixe a sua conversação e a sua energia fluir principalmente na visão do Reino e nos assuntos do Reino.

Por John Piper

Extraído do site Bom Caminho

Tradução: Centurio.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

A Divindade de Deus

A verdadeira fé é aquela que dá a Deus o lugar que Lhe é devido. E se dermos a Deus o Seu lugar devido, assumiremos o lugar que nos é próprio -- no pó. E o que pode trazer a criatura orgulhosa e auto-suficiente mais rápido ao pó senão uma visão da Divindade de Deus? Nada é tão humilhante para o coração humano como o verdadeiro reconhecimento da absoluta soberania de Deus. O principal problema é que muito do que é considerado fé, hoje, não passa de frágil sentimentalismo. A fé da Cristandade, neste século XX, é mera credulidade, e o “deus” de muitas das nossas igrejas não é o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, mas um mero fruto da imaginação, que mentes finitas possam entender, cujos caminhos sejam agradáveis ao homem natural (não nascido de novo), um “deus” totalmente “igual” (Sl 50:21) àqueles que professam adorá-lo, um “deus” a respeito do qual quase não há mistério. Mas como é diferente o Deus que as Escrituras revelam! DEle é dito, Seus caminhos são inescrutáveis (Rm11:33). Para ser mais específico:

1. O “deus” moderno é completamente carente de poder.

A idéia popular, nos dias de hoje, é que a deidade é cheia de amigáveis intenções para com os homens, mas que Satanás está impedindo que se lhes faça algum bem. Não é da vontade de Deus, assim nos dizem, que haja guerras, pois as guerras são algo que os homens são incapazes de reconciliar com suas idéias da misericórdia divina. Então, a conclusão é que todas as guerras são do Diabo. Pragas e terremotos, fomes e furacões não são enviados por Deus, mas são atribuídos somente às causas naturais. Afirmar que o Senhor Deus enviou a recente epidemia de gripe (na época que o pastor vivia o vírus da gripe matava---Nota do Editor) como um golpe de julgamento, iria chocar a sensibilidade da mente moderna. Coisas como estas causam dor a “deus”, pois “ele” NÃO deseja senão a felicidade de todos.

2. O “deus” moderno é completamente carente de sabedoria.

A crença popular é que Deus ama a todos, e que é da Sua vontade que cada filho de Adão seja salvo. Mas, se isto for verdade, Ele está estranhamente carecendo de sabedoria, pois Ele sabe muito bem que, sob as condições existentes, a maioria se perderá.

3. O “deus” moderno é carente de santidade.

Que o crime merece punição é aceito em parte, embora cada vez mais uma crença esteja ganhando terreno: a de que o criminoso é realmente mais objeto de pena do que de censura, e que ele precisa de educação e reforma, ao invés de punição. Mas que o PECADO--- tanto pecados em pensamentos como em atos, pecados de coração como pecados da vida, pecados de omissão bem como de comissão, tanto a própria raiz pecaminosa como o seu fruto --- deva ser odiado por Deus, pecado contra o qual a Sua santa natureza se inflama, é um conceito que saiu quase que completamente de moda; e que o próprio pecador é odiado por Deus é negado com indignação, mesmo por aqueles que se ufanam em alta voz da sua ortodoxia.

4. O “deus” moderno é completamente carente de prerrogativas de soberania.

Quaisquer que sejam os direitos que a deidade da Cristandade atual possa supostamente possuir em teoria, de fato eles devem ser subordinados aos “direitos” da criatura. Nega-se, quase universalmente, que os direitos do Criador sobre Suas criaturas seja o do Oleiro sobre o barro. Quando se afirma que Deus tem o direito de fazer um vaso para honra e outro vaso para desonra, o grito de injustiça ergue-se instantaneamente. Quando se afirma que a salvação é um dom e que este dom é conferido àqueles a quem Deus se agrada em dar, é dito que Ele é parcial e injusto. Se Deus tem algum dom para partilhar, Ele deve distribuir a todos igualmente, ou pelo menos distribuí-los àqueles que merecem, não importa quem possam ser. E assim é dada a Deus menos liberdade do que a mim, que posso distribuir minha caridade como bem quero, dando a um mendigo um pouco mais, a outro um pouco menos, e a um terceiro nada, se assim achar por bem.

Como o Deus da Bíblia é diferente do “deus” moderno! O Deus da Escritura é Todo-Poderoso. Ele é aquele que fala e é feito, que ordena e há prontidão. Ele é Aquele para quem todas as coisas são possíveis e faz todas as coisas segundo o conselho da sua vontade (Ef 1:1).

O Deus das Escrituras é infinito em sabedoria.

Nenhum segredo pode ser escondido dEle, nenhum problema pode confundi-Lo, nada é difícil demais para Ele. Deus é onisciente Grande é o Senhor nosso e mui poderoso; o seu entendimento não se pode medir (Sl 147:5). Portanto se diz, Não se pode esquadrinhar o seu entendimento (Is 40:28). Daí a razão porque numa revelação dEle nós esperamos encontrar verdades que transcendam o alcance da mente da criatura, e, portanto, é evidente a tolice presunçosa e a impiedade daqueles que não passam de “pó e cinza” ao tentarem pronunciar a racionalidade ou irracionalidade das doutrinas que estão acima da razão!

O Deus das Escrituras é infinito em santidade.

O único Deus verdadeiro é aquele que odeia o pecado com uma perfeita repulsa, e cuja natureza eternamente se inflama contra ele. Ele é Aquele que contemplou a impiedade dos antediluvianos e que abriu as janelas do céu derramando o dilúvio da Sua justa indignação. Ele é Aquele que fez chover fogo e enxofre sobre Sodoma e Gomorra e destruiu completamente aquelas cidades da planície. Ele é Aquele que enviou pragas ao Egito, e destruiu seu orgulhoso monarca, juntamente com seus exércitos no Mar Vermelho. Deus é tão santo, e tal é o antagonismo da Sua natureza para com o mal que, por um pecado, Ele baniu nossos pais do Éden, por um pecado Ele amaldiçoou a posteridade de Cão; por um pecado Ele transformou a esposa de Ló numa coluna de sal; por um pecado Ele enviou fogo e devorou os filhos de Arão; por um pecado Moisés morreu no deserto; por um pecado Acã e sua família foram todos apedrejados até à morte; por um pecado o servo de Elias foi ferido com lepra. Contemplem, portanto, não somente a bondade, mas também a severidade de Deus (Rm 11:22). E este é o Deus com quem todo aquele que rejeita a Cristo tem que se encontrar no julgamento!

O Deus das Escrituras tem uma vontade que é irresistível.

O homem fala e se orgulha da sua vontade, mas Deus também tem uma vontade! Os homens tiveram uma vontade nas planícies de Sinear e a dedicaram a construir uma torre cujo topo alcançasse o céu; mas em que resultou? Deus também tinha uma vontade, e o esforço cheio de vontade deles resultou em nada. Faraó tinha uma vontade quando ele endureceu seu coração e se recusou a permitir que o povo de Jeová fosse ao deserto e lá O adorasse, mas em que resultou? Deus tinha uma vontade, também, e sendo Todo-Poderoso, Sua vontade foi realizada. Balaque tinha uma vontade quando contratou Balaão para vir a amaldiçoar os hebreus; mas de que adiantava? Os cananitas tinham uma vontade quando eles determinaram impedir Israel de ocupar a Terra Prometida; mas até onde eles foram bem-sucedidos? Saul tinha uma vontade quando ele arremessou sua lança contra Davi, mas, ao invés de matar o ungido do Senhor, a lança foi parar na parede.

Sim, meu leitor, e você também tinha uma vontade quando fez seus planos sem buscar primeiro o conselho do Senhor, e por isso Ele os fez cair por terra. Assim como uma criança pode tentar impedir o oceano de se mover, assim também a criatura pode tentar resistir ao desenrolar do propósito do Senhor Ah! SENHOR, Deus de nossos pais, porventura não és tu que dominas sobre todos os reinos dos povos? Na tua mão está a força e o poder, e não há quem te possa resistir (2 Cr 20:6).

O Deus das Escrituras é Soberano absoluto.

Tal é a Sua própria reivindicação: Este é o desígnio que se formou concernente a toda a terra; e esta é a mão que está estendida sobre todas as nações. Porque o SENHOR dos Exércitos determinou; quem, pois, o invalidará? A sua mão está estendida; quem, pois, a fará voltar atrás? (Is14: 26, 27). A Soberania de Deus é absoluta e irresistível: Todos os habitantes da terra são por ele reputados em nada; e segundo a sua vontade ele opera com o exército do céu e os moradores da terra; não há quem lhe possa deter a mão, nem lhe dizer: Que fazes? (Dn 4:35). A Soberania de Deus é verdadeira não só hipoteticamente, mas de fato. Isto quer dizer, Deus exercita Sua soberania, e a exercita tanto na esfera natural quando na espiritual. Um nasce negro, outro branco. Um nasce em riqueza, outro em pobreza. Um nasce com um corpo saudável, outro enfermo e defeituoso. Um é cortado na infância, outro vive até a velhice. A um são dados cinco talentos, a outros somente um.

Em todos estes casos é Deus o Criador que faz com que um seja diferente do outro, e ninguém pode deter Sua mão. É assim também na esfera espiritual. Um nasce em lar piedoso e é criado no temor e na admoestação do Senhor; o outro é nascido de pais criminosos e é criado no meio do vício. Um é objeto de muitas orações, por outro não se ora. Um ouve o Evangelho desde a infância, outro nunca o ouve. Um senta-se sob o ministério de alguém que ensina as Escrituras, outro não ouve nada senão erros e heresias. Daqueles que ouvem ao Evangelho, um tem o seu coração “aberto pelo Senhor” para receber a verdade, enquanto outro é deixado por si mesmo. Um é ordenado para a vida eterna (At 13:48), enquanto o outro é ordenado para condenação (Jd 4). Para quem Deus quer Ele mostra misericórdia, e para com quem Ele quer, Ele endurece (Rm 9:18).

Por: A. W. Pink

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Precisamos da Reforma?

Muitos poderiam responder esta importante questão com um sonoro “não”. Porém, eu creio que nós necessitamos urgentemente da teologia reformada. É notória a crise doutrinária e institucional que a Igreja Evangélica no Brasil passa. Um sinal eloqüente é o aumento do número de pessoas que declararam ser “sem-religião” no último censo do IBGE. A maioria delas oriundas de igrejas neo-pentecostais. Vejo muitas igrejas sérias, pastores comprometidos com seu chamado, pecadores sendo salvos, porém, os dados são alarmantes. 30% da polícia no RJ é evangélica e isto não mudou nada dentro da corporação, inúmeros deputados e senadores são evangélicos e nossa política pouco mudou.

Analiso três áreas onde é possível identificar esta crise. Em primeiro lugar, estamos vivendo um abandono da nossa rica herança teológica Reformada. As igrejas diretamente ligadas a esta herança, há muito abandonaram este paradigma. Seus seminários são fortemente influenciados pelo Liberalismo Teológico, responsável pela destruição da fé nas igrejas européias. A Bíblia é vista com desconfiança e reinterpretada de acordo com os cânones pós-modernos. A busca de relevância e aceitação no meio acadêmico tem levado estas igrejas a formatar sua educação teológica nos moldes racionalistas e escolásticos. Repete-se aqui a teologia amorfa feita na Europa, uma teologia sem Deus e sem vida, e distante das demandas pastorais.


Em segundo lugar, a crise de nossa espiritualidade. Muitos confundiram que ocorreu no Brasil com o genuíno avivamento. A renovação litúrgica colocou a juventude na direção dos chamados grupos de louvor, mas as canções entoadas por eles são pobres em conteúdo, fracas em sua musicalidade, superficiais e alienantes. A Teologia da Prosperidade ainda influencia muita gente, mesmo depois de sofrer um ataque sério, feito no início dos anos 90 através de diversas publicações. Outro problema é a Teologia da Batalha Espiritual, que apregoa a demonização de pessoas e estruturas, promovendo um sincretismo perigoso. Uma visão pagã que mistura elementos do animismo, gnosticismo e cristianismo, formando uma salada religiosa de gosto duvidoso.


Como conseqüência, vejo uma crise de identidade e de relevância. Os crentes não conhecem sua rica história, nem se dão conta que são depositários de uma rica herança teológica. Cada novo movimento que surge tenta reinventar a roda, apresentar a solução final para a igreja brasileira. Os lemas sempre são triunfalistas, “vamos sarar a nossa terra”, “alcançar a nossa geração”, “o Brasil é do Senhor Jesus; povo de Deus declare isto”, etc.


Para atrair a atenção da liderança da igreja é só falar em metodologia de crescimento de igrejas. Cada novo movimento que surge quer responder este anseio. Notei que houve muito mais uma migração de crentes do que conversões de pecadores. A igreja em crise não consegue ser relevante e cria uma sub-cultura evangélica, onde temos versões “gospel” de tudo. Uma revista trazia em sua capa, um anúncio das fotos do nascimento do herdeiro de uma famosa cantora, outra revista perseguia o leitor com um anúncio de uma visita a residência de um importante líder, bem no estilo Caras, apresentada o refúgio particular do “grande servo de Deus”.


Ao contemplar um quadro tão desolador, podemos ser tentados a crer que Deus não está agindo em nosso país. Contudo, em meio a este deserto, Deus sempre tem a última palavra. Surge um oásis de esperança.


Admito que a trilha percorrida pelos reformadores é resposta para a crise da igreja. Alguns podem dizer: “Porque lembrar a Reforma? Ela foi um importante movimento, reconheço que ela foi a melhor para os problemas de seus dias no longínquo século XVI. Porém, não podemos responder os questionamentos de nossa geração com os conceitos antigos e ultrapassados dos reformadores”.


Penso que os caminhos antigos são os melhores. Ainda creio que caminhar ao lado de Lutero e Calvino é melhor maneira de fortalecer a quase moribunda Igreja brasileira. Minhas convicções a este respeito foram forjadas na fornalha da incredulidade do ambiente universitário, na minha experiência acadêmica, preparando líderes eclesiásticos e na dureza do trabalho pastoral numa cidade como Brasília.


A Reforma Protestante liderada por Lutero, que foi complementada por Calvino e Zwinglio, que resultou no movimento Puritano, modificou completamente a concepção religiosa medieval, que em muitos aspectos, é semelhante ao modelo evangélico atual. O uso de objetos, como a “rosa ungida”, “óleo santo de Israel”, “maçã do amor”, para despertar a fé das pessoas, mais se parece com a busca incessante de relíquias e objetos santos, tão comuns no catolicismo medieval. O neopentecostalismo pouco tem de reformado e evangélico, mas está carregado de elementos pré-reformados.


A fé é o ponto fundamental do Luteranismo e de toda a Reforma, a base de toda a religião reformada “Nessa experiência do Cristo finalmente puro, finalmente a sós, estaria a fé. Haveria assim uma fé pura, puramente inspirada pelo Espírito”. O reformador se acha em busca da pureza da fé: (a fé liberada de todas as contaminações dos interesses históricos interesses e paixões da cristandade)” [1]. Ela começa por rejeitar os intermediários e aspira ir até Deus e o Cristo diretamente, sem passar pela cristandade.


Os reformadores e puritanos acreditavam encontrar o verdadeiro Cristo diretamente da Bíblia. A Teologia Reformada está ligada a uma análise rigorosa da Bíblia, considerando de forma diversa tanto o Antigo Testamento como o Novo Testamento. Martin N. Dreher chamou a atenção para o fato de que a obra da vida de Lutero nada mais é do que “uma ampla e abrangente interpretação da Bíblia [2]”.


Os grupos reformados surgiram com a luta para que todo o povo tivesse acesso às Escrituras. As Escrituras eram autoritativas em todas as esferas da vida, testando a autoridade religiosa, os assuntos de moralidade, questões eclesiásticas, mas, por entender que toda a vida é religiosa, a aplicavam à ética, economia, política, em suma à toda vida.


Firmados na compreensão reformada da justificação dos pecadores pela fé mediante a graça e focalizando as necessidades pastorais e os problemas do seu tempo, os reformadores concentravam-se nas realidades da salvação do pecado: regeneração e santificação; as causas e a cura da hipocrisia e ‘falsa paz’; fé e certeza; oração e comunhão com Deus; consciência e casuística (que poderíamos chamar de “aconselhamento”); resumindo, a obra do Espírito Santo no cristão, a vida de Deus na alma do homem. Aqui suas percepções interiores são excepcionalmente valiosas.


Dai sua ênfase na centralidade da pregação. Eles se levantaram contra os métodos católicos. Estes usavam a dramatização, que chamavam de “dramatização dos mistérios”, quando atores profissionais eram pagos para, junto ao altar, representar diante da massa, que eles consideravam inculta e incapaz [3]. Mas, por causa de seu conceito das Escrituras, por entender que sua exposição é o meio ordinário de salvação, e que o homem, por ter a Imago Dei é um ser com capacidades racionais, eles rejeitaram estes acréscimos. Eles enfatizaram muito fortemente a pregação expositiva, não raro, pregando anos a fio em um livro da Bíblia.


Cada vez mais necessitamos voltar as Escrituras, ensinos básicos precisam ser retomados. Este analfabetismo bíblico, que grassa em nossos arraiais, é como se fosse uma doença que corroí a igreja. Um câncer que precisa ser extirpado. Deus quer que nos tornemos crentes que reflitam uma inabalável confiança nele, uma confiança que nos capacita a encarar a vida religiosa moderna em toda a sua realidade, e a permanecer fiéis apesar de tudo.


Pr. Isaias Lobão Pereira Júnior


Referências Bibliográficas:

DREHER, Martin, “Introdução”. In: LUTERO, Martinho. Obras Selecionadas. São Leopoldo: Editoras Sinodal e Concórdia.

LOPES, Augustus Nicodemus Pregação puritana”. in: Jornal Os Puritanos Ano II – Número 4 (Setembro 1993)


[1]
DREHER, Martin, p. 15

[2]DREHER, idem.

[3] LOPES, Augustus Nicodemus Jornal Os Puritanos pp. 8.


Artigo extraído do site Bíblia Page

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Confie em Deus e não nos Meios

Pois tive vergonha de pedir ao rei uma escolta de soldados, e cavaleiros para nos defenderem do inimigo pelo caminho, porquanto havíamos dito ao rei: A mão do nosso Deus é sobre todos os que o buscam, para o bem deles; mas o seu poder e a sua ira estão contra todos os que o deixam” (Ed. 8:22)

Uma escolta em muitos aspectos teria sido desejável para o grupo de viajantes, mas um santo sentimento de vergonha não permitiria que Esdras procurasse uma. Ele temia que o rei pagão pensasse que sua declaração de fé em Deus fosse mera hipocrisia, ou imaginasse que o Deus de Israel não fosse capaz de proteger Seus próprios adoradores. Ele não poderia deixar sua mente confiar no braço da carne (ver II Cr. 32:8) numa questão evidentemente do Senhor e, assim, a caravana inicia sua jornada sem proteção visível, guardada por Aquele que é a espada e o escudo de Seu povo. Receio que poucos crentes sintam este zelo santo por Deus; mesmo aqueles que de certa forma andam pela fé, ocasionalmente estragam o brilho de sua vida ao suplicar o auxílio dos homens. Não existe maior bênção que não ter qualquer apoio ou suporte, a não ser ficar direto na Rocha Eterna, sustentado somente pelo Senhor. Buscariam os crentes doações para suas igrejas se eles se lembrassem que o Senhor é desonrado ao pedirem socorro a César? Como se o Senhor não pudesse suprir as necessidades de Sua própria causa!

Recorreríamos tão rapidamente à ajuda de amigos e familiares se nos lembrássemos que o Senhor é glorificado pela nossa confiança absoluta em Seu braço? Ó minh'alma, espera só em Deus. "Mas", alguém diz, "os meios não podem serem usados?" É claro que podem; mas nossos erros raramente consistem em sua negligência: na maior parte das vezes florescem da tolice de crer nos meios em vez de crer em Deus. Poucos fogem, não confiando tanto na ajuda humana; no entanto, muitos pecam muito ao dar-lhe demasiada importância. Aprenda, querido leitor, a glorificar o Senhor por recusar valer-se dos meios, se, ao utilizá-los, vier a desonrar o nome do Senhor.

C.H. Spurgeon
Morning and Evening (Devocional matutina do dia 24 de setembro)

sábado, 1 de novembro de 2008

O tríplice uso da Lei

Todo cristão luta com a pergunta: De que forma a lei do Velho Testamento se relaciona com a minha vida? É a lei do Velho Testamento irrelevante para os cristãos ou há algum sentido em que nós ainda estamos submetidos a porções dela? Como a heresia do antinomianismo (anti-lei, ser contrário à lei) tem se tornado cada vez mais impregnada em nossa cultura, a necessidade de responder estas perguntas torna-se progressivamente mais urgente.

A Reforma fundamentou-se na graça e não na lei. Entretanto a lei de Deus não foi repudiada pelos Reformadores. João Calvino, por exemplo, escreveu o que ficou conhecido como o “Tríplice Uso da Lei" para mostrar a importância da lei na vida cristã. ¹

O primeiro propósito da lei é ser um espelho.

Por um lado, a lei de Deus reflete e espelha a perfeita retidão de Deus. A lei nos diz muito sobre quem Deus é. Talvez ainda mais importante, a lei traz à luz a imoralidade humana. Agostinho escreveu: "As lei ordena que nós, após tentarmos fazer o que é ordenado, e assim sentindo nossa fraqueza sob a lei, possamos aprender a implorar pela ajuda da graça." ² A lei realça nossa fraqueza de forma que nós possamos buscar a força que há em Cristo. Aqui a lei atua como um severo professor que nos conduz a Cristo.

Um segundo propósito da lei é a restrição do mal.

A lei, por si só, não pode transformar corações humanos. Pode, entretanto, servir para proteger os íntegros dos injustos. Calvino diz que este propósito ocorre "por meio de suas amedrontadoras denúncias e o conseqüente medo do castigo, para restringir aqueles que, a menos que forçados, não têm nenhuma consideração pela retidão e pela justiça." ³ A lei permite uma medida limitada de justiça nesta terra, até que o julgamento final seja concretizado.

O terceiro propósito da lei é revelar o que agrada a Deus.

Como filhos renascidos de Deus, a lei nos ilumina quanto ao que é agradável ao nosso Pai a quem buscamos servir. O cristão deleita-se na lei como o próprio Deus deleita-se nela. Disse Jesus: "Se me amais, guardareis os meus mandamentos" (João 14:15). Esta é a função mais elevada da lei: servir como um instrumento para que o povo de Deus tribute-Lhe honra e glória.

Quando estudamos ou meditamos na lei de Deus, estamos freqüentando a escola da retidão. Aprendemos o que agrada e o que ofende a Deus. A lei moral que Deus revela nas Escrituras sempre é válida para nós. Nossa redenção é da maldição da lei de Deus, não do nosso dever de obedecê-la. Nós somos justificados, não por causa de nossa obediência à lei, mas para que possamos nos tornar obedientes à lei de Deus. Amar a Cristo é guardar os Seus mandamentos. Amar Deus é obedecer a Sua a lei.

Resumo:
  • A igreja dos nossos dias foi invadida pelo antinomianismo que debilita, rejeita ou distorce a lei de Deus.
  • A lei de Deus é um espelho da santidade de Deus e da nossa iniqüidade. Ela serve para nos revelar a nossa necessidade de um salvador.
  • A lei de Deus é uma restrição contra o pecado.
  • A lei de Deus revela o que é agradável e o que é ofensivo a Deus.
  • O cristão deve amar a lei de Deus e obedecer à lei moral de Deus.
Passagens bíblicas para reflexão:

Salmo 19:7-11
Salmo 119:9-16
Romanos 7:7-25
Romanos 8:3-4
1 Coríntios 7:19
Gálatas 3:24
_______________________________
¹. Calvino, Institutas, Livro II, 1:304-310.
². Calvino, Institutas, Livro. II, 1:306.
³. Calvino, Institutas, Livro II, 1:307.

Autor: R. C. Sproul
Tradução: Juliano Heyse
Fonte: Bom Caminho

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