sábado, dezembro 19, 2009

O que o Natal significa para mim - por C.S. Lewis

Post de 2007, mas muito propício para esta época do ano.


Há três coisas que levam o nome de "Natal". A primeira é a festa religiosa. Ela é importante e obrigatória para os cristãos mas, já que não é do interesse de todos, não vou dizer mais nada sobre ela. A segunda (ela tem conexões histórias com a primeira, mas não precisamos falar disso aqui) é o feriado popular, uma ocasião para confraternização e hospitalidade. Se fosse da minha conta ter uma "opinião" sobre isso, eu diria que aprovo essa confraternização. Mas o que eu aprovo ainda mais é cada um cuidar da sua própria vida. Não vejo razão para ficar dando opiniões sobre como as pessoas devam gastar seu dinheiro e seu tempo com os amigos. É bem provável que elas queiram minha opinião tanto quanto eu quero a delas. Mas a terceira coisa a que se chama "Natal" é, infelizmente, da conta de todo mundo.

Refiro-me à chantagem comercial. A troca de presentes era apenas um pequeno ingrediente da antiga festividade inglesa. O Sr. Pickwick levou um bacalhau a Dingley Dell [1]; o arrependido Scrooge [2] encomendou um peru para seu secretário; os amantes mandavam presentes de amor; as crianças ganhavam brinquedos e frutas. Mas a idéia de que não apenas todos os amigos mas também todos os conhecidos devam dar presentes uns aos outros, ou pelo menos enviar cartões, é já bem recente e tem sido forçada sobre nós pelos lojistas. Nenhuma destas circunstâncias é, em si, uma razão para condená-la. Eu a condeno nos seguintes termos.

1. No cômputo geral, a coisa é bem mais dolorosa do que prazerosa. Basta passar a noite de Natal com uma família que tenta seguir a 'tradição' (no sentido comercial do termo) para constatar que a coisa toda é um pesadelo. Bem antes do 25 de dezembro as pessoas já estão acabadas – fisicamente acabadas pelas semanas de luta diária em lojas lotadas, mentalmente acabadas pelo esforço de lembrar todas as pessoas a serem presenteadas e se os presentes se encaixam nos gostos de cada um. Elas não estão dispostas para a confraternização; muito menos (se quisessem) para participar de um ato religioso. Pela cara delas, parece que uma longa doença tomou conta da casa.

2. Quase tudo o que acontece é involuntário. A regra moderna diz que qualquer pessoa pode forçar você a dar-lhe um presente se ela antes jogar um presente no seu colo. É quase uma chantagem. Quem nunca ouviu o lamento desesperado e injurioso do sujeito que, achando que enfim a chateação toda terminou, de repente recebe um presente inesperado da Sra. Fulana (que mal sabemos quem é) e se vê obrigado a voltar para as tenebrosas lojas para comprar-lhe um presente de volta?

3. Há coisas que são dadas de presente que nenhum mortal pensaria em comprar para si – tralhas inúteis e barulhentas que são tidas como 'novidades' porque ninguém foi tolo o bastante em adquiri-las. Será que realmente não temos utilidade melhor para os talentos humanos do que gastá-los com essas futilidades?

4. A chateação. Afinal, em meio à algazarra, ainda temos nossas compras normais e necessárias, e nessa época o trabalho em fazê-las triplica.

Dizem que essa loucura toda é necessária porque faz bem para a economia. Pois esse é mais um sintoma da condição lunática em que vive nosso país – na verdade, o mundo todo –, no qual as pessoas se persuadem mutuamente a comprar coisas. Eu realmente não sei como acabar com isso. Mas será que é meu dever comprar e receber montanhas de porcarias todo Natal só para ajudar os lojistas? Se continuar desse jeito, daqui a pouco eu vou dar dinheiro a eles por nada e contabilizar como caridade. Por nada? Bem, melhor por nada do que por insanidade.
____

Publicado originalmente em God in the dock -- Essays on Theology and Ethics (Deus no banco dos réus – Ensaios sobre Teologia e Ética), 1957.
[1] Samuel Pickwick é o personagem principal de Pickwick Papers, romance de Charles Dickens no qual suas aventuras são narradas. Dingley Dell é o nome de uma fazenda, um dos cenários do romance. (N. do T.)
[2] Referência ao avarento milionário Ebenezer Scrooge, personagem da obra Um Conto de Natal, de Charles Dickens. (N. do T.)
Tradução: © 2006 MidiaSemMascara.org

3 Comentários:

Filipe L. C. Machado disse...

Olá!

Há algum tempo venho acompanhando seu blog e suas postagens. (Seu blog já está em minha lista de blogs.)
Tem sido fonte de grande conhecimento e ajuda para mim, como também tenho certeza que tem sido para todos os verdadeiros cristãos comprometidos com a palavra.

Gostaria de pedir uma opinião sua sobre meu texto "Eu não consigo aceitar Jesus!" Publicado em meu blog, no dia de hoje (segunda-feira)
.
O texto é uma apologia à soberania de Deus e de que devemos nossa salvação totalmente e exclusivamente a Ele. Como sabemos, neste ato de salvação somos apenas agentes passivos.
Infelizmente, temos vistos muitos blogs pregarem a favor de uma expiação ilimitada, o que é lamentável.

Por favor, se puder ler e comentar, ficarei grato em poder contar com sua crítica.

Um abraço e Deus abençoe!

http://2timoteo316.blogspot.com

Rosângela Linhares disse...

Parabéns pelo seu excelente blog. Descori-o através de um vídeo do John Piper. Este vídeo tocou profundamente na minha alma , coração e mente. Agradeço a Deus pela sua vida e dedicação ao Senhor em escrever coisas tão maravilhosas. Nunca desista, pois quando parece que ninguém está vendo e valorizando, Deus está lhe reconhecendo e o seu trabalho está dando frutos aqui e na eternidade. Um grande abraço, mesmo sem conhece-lo pessoalmente.

Ron disse...

Olá!
Postei ano passado este texto no meu site, e agora estou repostando!

Um grande abraço - e continue na divulgação de Lewis!

Ron - Sociedade C. S. Lewis Brasil

Postar um comentário

  ©Orthodoxia 2006-2017

TOPO