segunda-feira, maio 10, 2010

João, o discípulo que amava

[...] João, o apóstolo e evangelista, foi exilado por Domiciano para a ilha de Patmos. Depois que o imperador morreu assassinado e o senado revogou as suas leis, João foi posto em liberdade e no ano 97 veio para Éfeso, onde permaneceu até o reinado de Trajano. Ali dirigiu as igrejas da Ásia e escreveu o seu evangelho. E assim viveu ele até o ano 68 depois da paixão de nosso Senhor, quando a sua idade era de aproximadamente cem anos.

Clemente de Alexandria acrescenta uma certa história relativa ao santo apóstolo, que merece ser lembrada por aqueles que têm prazer nas coisas honestas e proveitosas. A história é a seguinte: Quando João voltou para Éfeso procedente da ilha de Patmos, solicitaram-lhe que visitasse os lugares nas redondezas. Quando, ao fazê-lo, chegara a uma certa cidade e havia confortado os irmãos, viu um jovem de corpo robusto, belo semblante e espírito ardente. Fixando sério o recém-indicado bispo, disse João: — Eu, da maneira mais solene, entrego este homem em tuas mãos, aqui na presença de Cristo e da Igreja.

Quando o bispo havia recebido de João essa responsabilidade e havia prometido agir com fidelidade e diligência em relação a ela, João novamente dirigiu-lhe a palavra e lhe confiou a responsabilidade como antes fizera. Feito isso, João voltou para Éfeso. O bispo, recebendo o jovem entregue aos seus cuidados, trouxe-o para casa, cuidou dele, alimentou-o e finalmente o batizou. Depois disso, ele gradativamente relaxou sua atenção e vigilância sobre o jovem, confiando que já lhe dera as melhores salvaguardas possíveis ao marcá-lo com o selo do Senhor.

O jovem tinha então mais liberdade, e aconteceu que alguns de seus velhos amigos e conhecidos, que eram ociosos, dissolutos e endurecidos na maldade, passaram a fazer-lhe companhia. Inicialmente o convidaram para suntuosos e libertinos banquetes; depois o convenceram a sair com eles pela noite para furtar e roubar; em seguida, eles o tentaram a cometer maiores males e maldades. Assim, com o tempo veio o costume e pouco a pouco o jovem se tornou mais habilidoso e, sendo muito inteligente e de intrépida coragem, como um cavalo bravio ou indomado, abandonando o caminho reto e correndo solto e sem peias, foi levado de cabeça para as profundezas da desordem e do ultraje. E assim, esquecendo-se por completo da salutar doutrina da salvação que antes aprendera a ponto de rejeitá-la, foi tão longe no caminho da perdição que para ele avançar muito mais não era motivo de ansiedade. Desse modo, juntando-se a um bando de companheiros e colegas ladrões, ele assumiu o papel de cabeça e capitão entre os colegas, na perpetração de todos os tipos de assassínios e felonias.

Aconteceu que João foi novamente solicitado a visitar aquela região. Veio e, ao encontrar-se com o bispo a quem nos referimos antes, cobrou dele que prestasse contas do compromisso assumido na presença de Cristo e da congregação que estivera presente na ocasião. O bispo, algo surpreso com as palavras de João, supondo que se referissem a algum dinheiro posto sob sua custódia e que ele não recebera (mas mesmo assim não ousava desconfiar de João nem contrariar-lhe as palavras), não sabia o que responder. Então João, percebendo a sua perplexidade, expressando o que queria dizer de modo mais claro, explicou: — O jovem e a alma do nosso irmão posta sob a sua custódia, eu os exijo. — Então o bispo, lamentando e chorando em altos brados, disse: — Ele morreu. — E João indagou: — Como, qual foi a causa da morte? — Disse o outro: — Ele morreu para Deus, pois se tornou um homem mau e desregrado e acabou como um ladrão. Agora freqüenta a montanha em vez da Igreja, na companhia de malfeitores e ladrões iguais a ele.

Nesse ponto o apóstolo rasgou suas vestes e, lamentando muito, disse: — Que belo guardião da alma de seu irmão deixei aqui! Arranje-me um cavalo e arrume um guia que me acompanhe. — Feito isso, providenciados o cavalo e o homem, ele saiu às pressas da Igreja. Chegando ao lugar indicado, foi preso por ladrões que estavam à espreita. Mas ele, sem tentar fugir ou resistir, disse: — Vim até aqui com uma finalidade. Levem-me — disse ele — ao seu capitão. Assim que se cumpriu o seu pedido, o capitão, armado até os dentes, começou a examiná-lo de modo impiedoso. Logo em seguida, ao reconhecê-lo, foi tomado de confusão e vergonha e empreendeu uma fuga. Mas o velho o seguiu como pôde e, esquecendo-se da idade, gritava: — Meu filho, por que foges de teu pai? Um homem armado fugindo de um homem despojado, um jovem fugindo de um velho? Tem piedade de mim, meu filho, e não tenhas medo, pois ainda resta esperança de salvação. Eu responderei a Cristo por ti. Eu morrerei por ti, se for preciso. Como Cristo morreu por nós, eu darei a minha vida por ti. Acredita-me, foi Cristo que me enviou.

O capitão, ouvindo tais palavras, primeiro, como se estivesse confuso, ficou estático, e com isso a sua coragem se abateu. Depois jogou as armas ao chão e aos poucos começou a tremer, sim, e depois chorou amargamente. Em seguida, aproximando-se do velho, abraçou-o e falou com ele chorando (da melhor maneira que pôde), sendo novamente batizado no ato com lágrimas. Mas escondia a mão direita que estava encoberta.

Em seguida o apóstolo, depois de prometer que obteria o perdão de nosso Salvador, orou, caindo de joelhos, e beijou-lhe a mão direita assassina (que por vergonha ele antes não ousava mostrar), agora purificada pelo arrependimento, e o trouxe de volta para a Igreja. E quando havia rogado por ele com oração contínua e jejuns diários, e o havia fortalecido e confirmado a sua mente com muitas máximas, João o deixou novamente restaurado para a Igreja. Um grande exemplo de sincera penitência, prova de regeneração e um troféu da futura ressurreição.

John Foxe - O Livro dos Mártires

1 Comentário:

Marcello de Oliveira disse...

Shalom!

Simplesmente célebre este acontecimento. Lindo. Brilhante. Relevante. Agradeçemos esta ótima postagem!

Nele, Yeshua Ben Elohym Haym

Pr. Marcello

Visite: http://davarelohim.blogspot.com/

e veja o texto: Paulo (Rav. Shaul), um pregador extraordinário.

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