sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Deus Caritas Est

Quando o cristianismo diz que Deus ama o ser humano, isso quer dizer que Deus realmente ama o ser humano; não que ele tenha alguma preocupação “desinteressada” e totalmente indiferente ao nosso bem-estar. A verdade mais terrível e surpreendente é que nós somos objetos do seu amor. Você pediu um Deus amoroso: ele está aí. O grande espírito que você invocou com tanta sensibilidade, o “senhor de aspecto terrível”, existe mesmo. Não como algum velho bondoso e solene, desejoso de que você seja feliz à sua própria maneira; nem um magistrado filantrópico frio e consciente; tampouco um anfitrião que se sente responsável pelo conforto dos seus convidados. Trata-se antes do fogo consumidor dele mesmo: o amor que criou o mundo com o mesmo cuidado persistente de um artista pela sua obra e despótico como o amor de um homem por seu cachorro, providente e venerável como o amor de um pai por seu filho, ciumento, inexorável e exigente como o amor entre os amantes. Como isso deve acontecer, eu não sei. A razão por que qualquer criatura, sem falar de criaturas como nós, deveria ter um valor assim tão prodigioso aos olhos do Criador extrapola a nossa capacidade racional. Trata-se certamente de um fardo ou peso de glória que não vai apenas além dos nossos desertos, mas, salvo raros momentos de graça, além dos nossos desejos. Temos a mesma tendência das senhoras daquela peça antiga que desaprovaram o amor de Zeus. Mas o fato parece inquestionável.

C.S. Lewis - O Problema do Sofrimento

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