sexta-feira, abril 03, 2009

Conhecimento e fé salvífica

"Ele [Paulo] conclui que "Deus é um só, o qual justificará, por FÉ, o circunciso e, mediante a FÉ, o incircunciso" ([Rm3]v.30). Claramente, fé é essencial.

Mas o que é Fé? Para muitos evangélicos, Fé é somente uma aceitação mental de certas doutrinas. É algo que exercitamos uma vez no início de nossa vida cristã, depois do que podemos viver mais ou menos da maneira que nos agrada. Não importa em termos de nossa salvação se esta "fé" faz ou não diferença. Alguns evangélicos até ensinam que uma pessoa pode ser salva e segura tendo uma fé morta ou decadente ou, por incrível que pareça, se ele ou ela apostatar, negando a Jesus.

Em contraste com tal estripada fé, em toda a história da igreja a maioria dos professores da Bíblia insistiram em que a fé salvadora, bíblica, tem três elementos: "conhecimento, convicção e confiança", como Spurgeon coloca; "consciência, aceitação, e compromisso", como D. Martyn Lloyd-Jones disse; ou NOTITIA, ASSENCUS e FIDUCIA, para usar a terminologia latina.

1- O PRIMEIRO ELEMENTO É NOTITIA, OU CONHECIMENTO. Começamos com "conhecimento da Verdade" (ou "conteúdo"), porque fé começa aqui. Fé sem conteúdo não é verdadeira fé. R. C. Sproul diz acertadamente: "Não posso ter Deus em meu coração se não o tenho em minha cabeça. Antes de acreditar EM, deve acreditar QUE." Ou como John Gerstner, um dos professores de Sproul, frequentemente dizia, "Nada pode entrar no santuário do coração a menos que primeiro passe pelo vestíbulo da mente".

Dos escritores sobre fé, Calvino talvez seja mais forte neste ponto, porque ele achou que isto era necessário para opor a sérios erros acerca da fé, que haviam se desenvolvido no ensino da igreja medieval. Nos anos antes da Reforma, a igreja negligenciava o ensino das Escrituras ao povo. Assim a maioria das pessoas, até mesmo o clero, era ignorante a respeito do evangelho. Como pessoas tão ignorantes seriam salvas? A igreja respondeu que era por uma fé "implícita". Isto é, na verdade, não era necessário ao comungante saber qualquer coisa. Tudo que ele ou ela tinha a fazer era confiar na igreja implicitamente. A igreja e seus ensinamentos eram corretos, mesmo que as pessoas não soubessem o que aqueles ensinamentos corretos eram; aquelas pessoas estariam bem também, se elas apenas confiassem ou acreditassem na igreja.
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Calvino argumentou que "o objeto da fé é Cristo" e que "fé apoia-se no conhecimento, não em ignorância pia". Ele escreveu:

"Não obtemos salvação por estarmos preparados para abraçar como verdade o que for que a igreja tenha prescrito, ou porque deixamos a ela a tarefa de inquirir e conhecer. Mas o fazemos quando sabemos que Deus é nosso Pai misericordioso, por causa da reconciliação efetuada por meio de Cristo (2 Co 5.18,19) e que Cristo foi dado a nós como justiça, santificação e vida. Por este conhecimento, digo, não por submissão de nosso sentimento, obtemos entrada no Reino do Céu."

2-O SEGUNDO ELEMENTO É ASSENSUS, OU ACEITAÇÃO. É o que Spurgeon chamou de "convicção". A idéia aqui é que, importante como o conteúdo bíblico de fé é -o ponto que Calvino enfatizou tão fortemente-todavia é possível conhecer este conteúdo bem e ainda estar perdido- se o ensino não tocou o indivíduo ao ponto dele ou dela concordarem com o mesmo. Quando eu estava estudando literatura inglesa na faculdade, tive muitos professores que entendiam e eram completamente capazes de explicar a doutrina critã, por serem tão fortes na literatura. Mas eles não criam nela. Eles não tinham fé neste segundo sentido.

Uma ilustração do que este segundo elemento possa significar é a conversão de John Wesley em 1738. O grande evangelista metodista era um pregador ativo antes de sua conversão. Ele conhecia a doutrina cristã, mas ela não havia afetado-o a um nível pessoal. Ele havia crido, num sentido. Mas ele não amava realmente a cristo ou confiava nele pessoalmente. Contudo, uma noite ele foi a uma reunião em Aldersgate Street em londres, onde alguém estava lendo o "Prefácio" à Epístola aos Romanos, de Lutero, e Wesley foi convertido. Ele escreveu: "Cerca de quinze para as nove, enquanto ele descrevia a mudança que Deus efetuou no coração por meio da fé em Cristo, senti meu coração estranhamente aquecido. Senti que confiava em Cristo, somente Cristo, para minha salvação. E uma segurança foi dada a mim de que ele havia retirado MEUS pecados, até os MEUS, e salvado-ME da lei do pecado e da morte."
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Aqui está como Calvino coloca isto, seguindo uma longa sessão que trata o problema do conteúdo da fé: "Agora é preciso derramar no coração o que a mente absorveu. Pois a Palavra de Deus não é recebida pela fé, se esvoaça para lá e para cá no topo do cérebro, mas quando enraiza no profundo do coração para que seja uma defesa invencível ao resistir e repelir todos os estratagemas de tentação."

3-O TERCEIRO ELEMENTO É FIDUCIA, OU CONFIANÇA E COMPROMISSO. O terceiro elemento de fé, o qual Spurgeon chama de "confiança" e Lloyd-Jones chama "compromisso", é uma verdadeira auto-entrega a Cristo que vai além do conhecimento, ainda que este seja completo e correto, e até mesmo além da concordância com o evangelho ou sendo pessoalmente tocado por ele. Este deve ser o caso, porque até mesmo os demônios crêem nos dois limitados sentidos anteriores. Eles sabem o que a Bíblia ensina; eles sabem que é verdade. Mas eles não estão salvos. Tiago estava reconhecendo isto quando descreveu a fé inaquequada de algumas pessoas escrevendo: "Crês, tu, que Deus é um só? Fazes bem. Até os demônios crêem e tremem" (Tg 2.19). Em outras palavras, acreditar nas verdades do Cristianismo em si, se não prosseguirmos para este terceiro necessário elemento, somente qualifica alguém a ser um demônio!

Compromisso é o ponto no qual passamos a linha delimitadora de pertencermos (como pensamos) a nós mesmos e nos tornarmos verdadeiros discípulos do Senhor. Isto é o que foi visto em Tomé quando ele caiu aos pés de Jesus em adoração, exclamando: "Senhor meu e Deus meu!" (Jo 20.28).

Podemos também dizer isto ao destacar que FIDUCIA, o terceiro elemento de fé, envolve uma mudança radical de valores. Tomemos o caso do demônio chefe, Satanás. Satanás tem a NOTITIA, ele conhece o evangelho. Ele também acredita no evangelho no sentido de qe ele sabe que é verdade; neste sentido ele tem o ASSENSUS. Mas Satanás resiste a Cristo. Ele é oposto a tudo que Cristo representa. Ele despreza Cristo. Portanto, Satanás não tem fé em Jesus no sentido salvador. Para Satanás ser salvo ele teria que ter uma mudança nos valores para uma busca apaixonada da salvação. O terceiro elemento de fé produz tal mudança que é porque a pessoa nascida de novo agora busca intensamente o que ele ou ela desprezava anteriormente. Antes, a pessoa nada via que fosse desejável a respeito de Jesus. Agora, a pessoa não pode imaginar a vida sem ele.
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A NOVA FORMA DE UM VELHO ERRO.

Infelizmente, há um considerável segmento da igreja evangélica que discorda da necessidade destes três elementos. Restringe a confissão "Jesus é Senhor" à crença de que Jesus é um Salvador divino e explicitamente elimina qualquer idéia de que Jesus deve ser Senhor de nossa vida para sermos cristãos. Ensina que uma pessoa pode ser um cristão sem ser um seguidor de Jesus Cristo. Reduz o evangelho ao mero fato de Cristo ter morrido por pecadores; requer dos pecadores somente que eles reconheçam isto pelo tipo mais de aceitação intelectual, bem à parte de qualquer arrependimento ou abandono de pecado; e então os assegura de sua segurança eterna quando eles podem muito bem nem serem nascidos de novo ainda. Este ponto de vista torce a verdadeira fé bíblica a níveis irreconhecíveis e oferece uma falsa segurança às pessoas que podem ter dado confirmação verbal a este tipo reducionista de Cristianismo mas que não estão na família de Deus.

James Montgomery Boice em O Evangelho da Graça - Editora Cultura Cristã

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