quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Vencendo a corrida

A maioria de nós lê biografias para satisfazer a curiosidade a respeito de grandes nomes na esperança de descobrir o “segredo” de sua grandeza. No ano de 1952, Edmund Hillary tentou escalar o Monte Everest a mais alta montanha do mundo com 8.800 metros. Algumas semanas depois de uma tentativa fracassada, pediram-lhe que falasse para um grupo de pessoas na Inglaterra. Propositadamente, colocaram uma grande gravura do Monte Everest na parede do auditório. Quando ele viu a gravura, abaixou a cabeça e caminhou para o palco cabisbaixo. Mas, ao lhe perguntarem se havia desistido, ele se levantou, apontou para a figura da montanha no fundo do palco e disse em voz alta: “Monte Everest, dessa vez você me derrotou, mas na próxima eu o derrotarei, porque você já cresceu tudo o que tinha de crescer, mas eu ainda estou crescendo!” Em maio do ano seguinte, Edmund Hillary tornou-se o primeiro homem a escalar o Monte Everest. Após uma perda progressiva da audição, o compositor alemão Ludwig Van Beethoven ficou totalmente surdo aos quarenta e seis anos. Apesar disso, continuou compondo, e algumas de suas melhores composições, inclusive cinco sinfonias, foram escritas durante seus últimos anos.

Aqui neste texto de Filipenses 3, Paulo apresenta sua biografia espiritual, seu passado (Fp 3.1-11), presente (Fp 3.12-16) e futuro (Fp 3.17-21). Neste texto, vemos Paulo como um atleta, cheio de vigor espiritual, avançando para o alvo. Em suas epístolas, Paulo usa várias ilustrações para comunicar a verdade acerca da vida cristã. Quatro tipos de imagens destacam-se em particular: a militar( revesti-vos de toda armadura), a arquitetônica (habitação de Deus), a agrícola (aquilo que o homem semear) e a atlética deste capítulo.

Cada cristão está em uma pista de corrida; cada um tem uma raia específica, dentro da qual deve correr, e cada um tem um objetivo a alcançar. Quem alcançar o objetivo que Deus planejou será recompensado. Quem falhar, perderá a recompensa, mas não a cidadania (ver I Co 3.11-15, em que a mesma idéia é apresentada usando uma imagem arquitetônica).

Quais são os elementos essências para vencer a corrida e, um dia, receber a recompensa prometida?

1- Insatisfação (Fp 3.12-13a) “Não julgo, havê-lo alcançado.”

Essa é uma declaração de um cristão consagrado que nunca se deu por satisfeito com suas realizações espirituais. Muitos cristãos estão contentes com a própria situação, pois comparam sua carreira com de outros cristãos, que normalmente não fazem nenhum progresso em suas vidas. Se Paulo tivesse se comparado com outros, seria tentado a se orgulhar e, talvez, a relaxar um pouco. Afinal, eram poucos os cristãos de seu tempo que haviam tido experiências como as dele! Mas Paulo não se comparou com outros; antes, se comparou consigo mesmo e com Jesus Cristo. Ainda não alcançou a perfeição(Fp 3.12), mas já é “perfeito” [maduro] (Fp 3.15), e uma das características dessa maturidade é a consciência da própria imperfeição!

Em várias ocasiões, a Bíblia adverte sobre o perigo de iludir-se quanto à própria condição espiritual. É dito a igreja de Sardes: “tens nome do que vive e estás morto”(Ap 3.1). Sua reputação não correspondia à realidade. A igreja de Laodicéia vangloriava-se de sua riqueza, e auto-suficiência, Jesus diz: “vocês são pobres, miseráveis, cegos e nus (Ap 3.17). Ao contrário desta igreja, os irmãos de Esmirna consideravam-se pobres, quando, na verdade, eram ricos! (Ap 2.9)”.

2. Dedicação (Fp 3.13b)

“Uma coisa” – essa é uma expressão importante para a vida cristã. “Só uma coisa te falta”, disse Jesus para o jovem rico que se considerava justo (Mc 10.21). “Pouco é necessário, ou mesmo uma só coisa”, explicou para Marta quando ela criticou sua irmã” (Lc 10.42). “Uma coisa sei”, exclamou o homem que passou a ver pelo poder de Cristo (Jo 9.25).“Uma coisa peço ao Senhor,e a buscarei”, testemunhou o salmista (Sl 27.4). Muitos cristãos estão envolvidos demais com “várias coisas”, quando, na verdade, o segredo do progresso é concentrar-se em “uma coisa”.

O cristão deve dedicar-se a correr a carreira cristã. Nenhum atleta é bem sucedido ao fazer de tudo; seu sucesso deve-se a especialização. Os vencedores são os que se concentram e mantêm os olhos fixos em seu objetivo, sem deixar que coisa alguma os distraia. Como Neemias, que reconstruiu os muros de Jerusalém, respondem aos convites que podem distraí-los dizendo: “Estou fazendo uma grande obra, de modo que não poderei descer” (Ne 6.3).“Um homem de ânimo dobre [é] inconstante em todos os seus caminhos” (Tg 1.8). A concentração é o segredo do poder.

3. Direção (Fp 3.13c)

Os incrédulos são controlados pelo passado, mas o cristão que participa da corrida olha para o futuro. Você já imaginou o que aconteceria em uma corrida, se os corredores começassem a olhar para trás? Se o agricultor que está arando não deve olhar para trás (Lc 9.62), quanto mais o corredor, pois, se o fizer, o resultado poderá ser uma colisão e ferimentos graves. O cristão deve estar voltado para o futuro, “esquecendo-se das coisas que para trás ficam”. Convém lembrar que, na terminologia da Bíblia, o verbo “esquecer” não significa “deixar de lembrar”. A menos que se trate de um caso de senilidade, de hipnose ou de problemas neurológicos, nenhum individuo maduro é capaz de se esquecer do que aconteceu no passado. Na Bíblia “esquecer” significa “não ser mais influenciado ou afetado por algo”.Quando Deus promete: “Também de nenhum modo me lembrarei dos seus pecados e das suas iniqüidades, para sempre”(Hb 10.17), não está sugerindo que terá uma crise de memória curta! Isso é impossível para Deus. Antes, está dizendo: “não os acusarei desses pecados; não afetam mais sua situação diante de mim, nem influenciam minha atitude para com eles”.

Assim, “esquecendo-me das coisas que para trás ficam” não indica uma proeza mental impossível, nem um exercício psicológico por meio do qual tentamos apagar os pecados e erros do passado. Significa, que quebramos o poder do passado sobre o futuro. Não é possível mudar o passado, mas mudar seu significado é algo que se pode fazer.

Um excelente exemplo disso é José (Gn 45.1-15). Quando se encontrou com seus irmãos pela segunda vez e lhes revelou sua identidade, não guardou mágoa deles. Sem dúvida, o haviam maltratado, mas ele olhou para o passado do ponto de vista de Deus. Assim, ele não acusou seus irmãos de coisa alguma. José sabia que Deus tinha um plano para sua vida – uma carreira para completar – e ao realizar esse plano e olhar para o futuro, rompeu o poder do passado.

4. Determinação (Fp 3.14)

“Prossigo!” O mesmo verbo é usado no vs 12, e tem o sentido de esforço intenso. Os gregos costumavam usar esse termo para descrever um caçador perseguindo avidamente a presa. Um individuo não se torna um atleta vencedor ouvindo palestras, lendo livros ou torcendo em jogos. Antes, o atleta bem sucedido entra em jogo e se mostra determinado a vencer! O mesmo zelo que Paulo manifestava ao perseguir a igreja (Fp 3.6) pode ser observado em seu serviço a Cristo. Aliás, não seria maravilhoso se os cristãos demonstrassem tanta determinação em sua vida espiritual quanto demonstram quando vão à academia ou quando jogam futebol no fim de semana?

O atleta cristão corre com disposição, pois sabe que Deus deve operar nele e capacitá-lo a vencer a corrida (Fp 2.12-13). Deus opera em nós para que possa operar por meio de nós. Quando o individuo dedica-se as coisas da vida espiritual, Deus lhe dá maturidade e o fortalece para a corrida. “Exercita-te, pessoalmente, na piedade” (I Tm 4.7-8).

5. Disciplina (Fp 3.15-16)

Não basta correr com disposição e vencer a corrida; o corredor também deve obedecer às regras. Nos jogos gregos, os juízes eram extremamente rigorosos com respeito aos regulamentos, e o atleta que cometesse qualquer infração era desqualificado. Não perdia a cidadania (apesar de desonrá-la), mas perdia o privilégio de participar e de ganhar um prêmio. Era esse tipo de situação que Paulo tinha em mente em I Co 9.24-27: “Todo atleta em tudo se domina” (I Co 9.25). O atleta que se recusa a treinar é desqualificado, como também é o atleta que transgride as regras do jogo (II Tm 2.5). Um dia, todo cristão vai se encontrar diante do tribunal de Cristo (Rm 14.10-12). O termo grego para “tribunal” é bema, a mesma palavra usada para descrever o lugar onde os juízes olímpicos entregavam os prêmios! Se nos disciplinarmos a obedecer às regras, receberemos o prêmio.

O relato bíblico é repleto de gente que começou a corrida com grande sucesso, mas que fracassou no final por não atentar para as regras de Deus. Não perderam a salvação, mas perderam a recompensa (I Co 3.15). Que venhamos atentar para o texto de Hebreus 12.1: “Portanto nós também, pois que estamos rodeados de uma tão grande nuvem de testemunhas, deixemos todo o embaraço, e o pecado que tão de perto nos rodeia, e corramos com paciência a carreira que nos está proposta”. Amém.

Pr. Marcelo de Oliveira
Contato: evmarcello.olliver@gmail.com - Bibliografia: Wiersbe, Warren W. Comentário bíblico. Vol.6. Lopes, Hernandes Dias. Vencendo gigantes. Ed. Hagnos. - Originalmente em Bíblia World Net, na coluna Crescendo na Graça.

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