terça-feira, 4 de novembro de 2008

Precisamos da Reforma?

Muitos poderiam responder esta importante questão com um sonoro “não”. Porém, eu creio que nós necessitamos urgentemente da teologia reformada. É notória a crise doutrinária e institucional que a Igreja Evangélica no Brasil passa. Um sinal eloqüente é o aumento do número de pessoas que declararam ser “sem-religião” no último censo do IBGE. A maioria delas oriundas de igrejas neo-pentecostais. Vejo muitas igrejas sérias, pastores comprometidos com seu chamado, pecadores sendo salvos, porém, os dados são alarmantes. 30% da polícia no RJ é evangélica e isto não mudou nada dentro da corporação, inúmeros deputados e senadores são evangélicos e nossa política pouco mudou.

Analiso três áreas onde é possível identificar esta crise. Em primeiro lugar, estamos vivendo um abandono da nossa rica herança teológica Reformada. As igrejas diretamente ligadas a esta herança, há muito abandonaram este paradigma. Seus seminários são fortemente influenciados pelo Liberalismo Teológico, responsável pela destruição da fé nas igrejas européias. A Bíblia é vista com desconfiança e reinterpretada de acordo com os cânones pós-modernos. A busca de relevância e aceitação no meio acadêmico tem levado estas igrejas a formatar sua educação teológica nos moldes racionalistas e escolásticos. Repete-se aqui a teologia amorfa feita na Europa, uma teologia sem Deus e sem vida, e distante das demandas pastorais.


Em segundo lugar, a crise de nossa espiritualidade. Muitos confundiram que ocorreu no Brasil com o genuíno avivamento. A renovação litúrgica colocou a juventude na direção dos chamados grupos de louvor, mas as canções entoadas por eles são pobres em conteúdo, fracas em sua musicalidade, superficiais e alienantes. A Teologia da Prosperidade ainda influencia muita gente, mesmo depois de sofrer um ataque sério, feito no início dos anos 90 através de diversas publicações. Outro problema é a Teologia da Batalha Espiritual, que apregoa a demonização de pessoas e estruturas, promovendo um sincretismo perigoso. Uma visão pagã que mistura elementos do animismo, gnosticismo e cristianismo, formando uma salada religiosa de gosto duvidoso.


Como conseqüência, vejo uma crise de identidade e de relevância. Os crentes não conhecem sua rica história, nem se dão conta que são depositários de uma rica herança teológica. Cada novo movimento que surge tenta reinventar a roda, apresentar a solução final para a igreja brasileira. Os lemas sempre são triunfalistas, “vamos sarar a nossa terra”, “alcançar a nossa geração”, “o Brasil é do Senhor Jesus; povo de Deus declare isto”, etc.


Para atrair a atenção da liderança da igreja é só falar em metodologia de crescimento de igrejas. Cada novo movimento que surge quer responder este anseio. Notei que houve muito mais uma migração de crentes do que conversões de pecadores. A igreja em crise não consegue ser relevante e cria uma sub-cultura evangélica, onde temos versões “gospel” de tudo. Uma revista trazia em sua capa, um anúncio das fotos do nascimento do herdeiro de uma famosa cantora, outra revista perseguia o leitor com um anúncio de uma visita a residência de um importante líder, bem no estilo Caras, apresentada o refúgio particular do “grande servo de Deus”.


Ao contemplar um quadro tão desolador, podemos ser tentados a crer que Deus não está agindo em nosso país. Contudo, em meio a este deserto, Deus sempre tem a última palavra. Surge um oásis de esperança.


Admito que a trilha percorrida pelos reformadores é resposta para a crise da igreja. Alguns podem dizer: “Porque lembrar a Reforma? Ela foi um importante movimento, reconheço que ela foi a melhor para os problemas de seus dias no longínquo século XVI. Porém, não podemos responder os questionamentos de nossa geração com os conceitos antigos e ultrapassados dos reformadores”.


Penso que os caminhos antigos são os melhores. Ainda creio que caminhar ao lado de Lutero e Calvino é melhor maneira de fortalecer a quase moribunda Igreja brasileira. Minhas convicções a este respeito foram forjadas na fornalha da incredulidade do ambiente universitário, na minha experiência acadêmica, preparando líderes eclesiásticos e na dureza do trabalho pastoral numa cidade como Brasília.


A Reforma Protestante liderada por Lutero, que foi complementada por Calvino e Zwinglio, que resultou no movimento Puritano, modificou completamente a concepção religiosa medieval, que em muitos aspectos, é semelhante ao modelo evangélico atual. O uso de objetos, como a “rosa ungida”, “óleo santo de Israel”, “maçã do amor”, para despertar a fé das pessoas, mais se parece com a busca incessante de relíquias e objetos santos, tão comuns no catolicismo medieval. O neopentecostalismo pouco tem de reformado e evangélico, mas está carregado de elementos pré-reformados.


A fé é o ponto fundamental do Luteranismo e de toda a Reforma, a base de toda a religião reformada “Nessa experiência do Cristo finalmente puro, finalmente a sós, estaria a fé. Haveria assim uma fé pura, puramente inspirada pelo Espírito”. O reformador se acha em busca da pureza da fé: (a fé liberada de todas as contaminações dos interesses históricos interesses e paixões da cristandade)” [1]. Ela começa por rejeitar os intermediários e aspira ir até Deus e o Cristo diretamente, sem passar pela cristandade.


Os reformadores e puritanos acreditavam encontrar o verdadeiro Cristo diretamente da Bíblia. A Teologia Reformada está ligada a uma análise rigorosa da Bíblia, considerando de forma diversa tanto o Antigo Testamento como o Novo Testamento. Martin N. Dreher chamou a atenção para o fato de que a obra da vida de Lutero nada mais é do que “uma ampla e abrangente interpretação da Bíblia [2]”.


Os grupos reformados surgiram com a luta para que todo o povo tivesse acesso às Escrituras. As Escrituras eram autoritativas em todas as esferas da vida, testando a autoridade religiosa, os assuntos de moralidade, questões eclesiásticas, mas, por entender que toda a vida é religiosa, a aplicavam à ética, economia, política, em suma à toda vida.


Firmados na compreensão reformada da justificação dos pecadores pela fé mediante a graça e focalizando as necessidades pastorais e os problemas do seu tempo, os reformadores concentravam-se nas realidades da salvação do pecado: regeneração e santificação; as causas e a cura da hipocrisia e ‘falsa paz’; fé e certeza; oração e comunhão com Deus; consciência e casuística (que poderíamos chamar de “aconselhamento”); resumindo, a obra do Espírito Santo no cristão, a vida de Deus na alma do homem. Aqui suas percepções interiores são excepcionalmente valiosas.


Dai sua ênfase na centralidade da pregação. Eles se levantaram contra os métodos católicos. Estes usavam a dramatização, que chamavam de “dramatização dos mistérios”, quando atores profissionais eram pagos para, junto ao altar, representar diante da massa, que eles consideravam inculta e incapaz [3]. Mas, por causa de seu conceito das Escrituras, por entender que sua exposição é o meio ordinário de salvação, e que o homem, por ter a Imago Dei é um ser com capacidades racionais, eles rejeitaram estes acréscimos. Eles enfatizaram muito fortemente a pregação expositiva, não raro, pregando anos a fio em um livro da Bíblia.


Cada vez mais necessitamos voltar as Escrituras, ensinos básicos precisam ser retomados. Este analfabetismo bíblico, que grassa em nossos arraiais, é como se fosse uma doença que corroí a igreja. Um câncer que precisa ser extirpado. Deus quer que nos tornemos crentes que reflitam uma inabalável confiança nele, uma confiança que nos capacita a encarar a vida religiosa moderna em toda a sua realidade, e a permanecer fiéis apesar de tudo.


Pr. Isaias Lobão Pereira Júnior


Referências Bibliográficas:

DREHER, Martin, “Introdução”. In: LUTERO, Martinho. Obras Selecionadas. São Leopoldo: Editoras Sinodal e Concórdia.

LOPES, Augustus Nicodemus Pregação puritana”. in: Jornal Os Puritanos Ano II – Número 4 (Setembro 1993)


[1]
DREHER, Martin, p. 15

[2]DREHER, idem.

[3] LOPES, Augustus Nicodemus Jornal Os Puritanos pp. 8.


Artigo extraído do site Bíblia Page

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