quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Tocar a Cristo

A alusão à uma experiência prática pode ser de ajuda. Permita-me relatar um pouco de minha experiência pessoal. Há vários dias, algo aconteceu na casa de um irmão. Sendo cristão, eu desejava ser compassivo e achei que deveria visitá-lo. Assim, poderia ajudá-lo compartilhando com ele algum sentimento pessoal e, talvez, livrá-lo de vários problemas no futuro. Então fui visitá-lo. Entretanto, a medida que andava ficava mais e mais frio por dentro, até o ponto em que meu espírito ficou completamente sufocado. Imediatamente percebi que, o problema era que eu mesmo estava querendo agir de forma piedosa. Estava tentando praticar um ato de amor para com o irmão e, no entanto, já havia tocado a morte. O ato era correto, estava certo, porém não era Cristo, mas eu quem o fazia. Qual seria a conseqüência se eu empreendesse essa tarefa? A resposta é: morte e frieza interior. Posso ter iniciado uma ação recomendável, mas não fui de encontro a vida. Sem dúvida era um ato de compaixão, no entanto, não pude encontrar o Senhor nesse ato. Tudo o que se poderia dizer é que eu havia sido compassivo. Permita-me reiterar que, cada vez que você toca a Cristo e não em uma conduta, você toca a vida. Se você apenas ficar na esfera da conduta, certamente morrerá, pois é você quem está agindo. Temos que entender que cristianismo é Cristo, e que a vida de um cristão também é Cristo. Não empilhe uns milhares de itens e olhe para essa pilha como se fosse a vida cristã. Se você fosse capaz de ajuntar todas as “humildades” da terra e agrupar dezenas de milhares de outras boas características, ainda assim não poderia criar um cristão. Seria apenas um amontoado de "coisas", em vez de Cristo. Há alguns anos, esforçava-me a todo custo para evitar que outras pessoas se sentissem embaraçadas ou magoadas. Não gostava de ter que expor os delitos dos outros; não deixava as pessoas saírem de minha casa sentindo-se feridas e relutava muito para não envergonhar a quem quer que fosse. No entanto, freqüentemente sentia morte, morte instantânea, sem qualquer toque de vida ao tentar ser uma pessoa boa e gentil para com algum irmão. A explicação para isso é simples: essa gentileza era o mero produto de meus próprios esforços. Não era Cristo e portanto, eu morria instantaneamente. Era como se tocasse num corpo morto. Estava enfraquecido interiormente. Não havia mais forças em mim, e assim estava acabado interiormente. Esse, então, é o ponto essencial de toda a questão. Na medida em que vivemos diante de Deus, experimentamos morte quando apenas buscamos uma virtude. Se o que temos é meramente uma virtude, imediatamente tocamos a morte, porque Cristo não está ali. Se tocássemos a Cristo, imediatamente entraríamos em contato com a vida, pois Ele mesmo é a vida.

Watchman Nee

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Cristo Somente

"...na esfera espiritual, não há nada além de Cristo."


O que muitos não reconhecem é que, na esfera espiritual, não há nada além de Cristo. Não há paciência, nem humildade, nem luz no mundo espiritual; essas "coisas" não existem. É Cristo, e Ele somente. Em vista disso, precisamos que Deus opere mais em nossas vidas. Quando fomos salvos nos foi mostrado que necessitávamos de Cristo e não de obras. Fomos salvos por Cristo e não por nossos esforços. E agora devemos ter a mesma revelação drástica e cabal, de que precisamos de Cristo, não de "coisas". Assim como várias questões foram eliminadas quando cremos, tantas outras devem ser totalmente aniquiladas. A única diferença é que as que foram destruídas no inicio eram pecados, enquanto que posteriormente, as "coisas espirituais" é que devem ser demolidas. No início foi o nosso orgulho, ou ciúme, vanglória, mau gênio ou algum outro pecado que foi destruído e, hoje, a nossa paciência, ou humildade e santidade própria devem também ser destruídos para que possamos entender que Cristo é a nossa vida e o nosso tudo. Quão oposto é este cristianismo daquele que as pessoas geralmente imaginam. Alguns irmãos freqüentemente vêm conversar comigo e me fazem várias perguntas. Consideram-se melhores do que muitos outros. Você pode estar entre esses, mas meu temor é que permaneça o mesmo por toda a sua vida, porque o que você tem em si mesmo são apenas "coisas". Com respeito a paciência, você é verdadeiramente paciente; com respeito à humildade, você pode ser bastante humilde; você é brilhante em realizar tarefas e sua conduta é muito boa. Você ama e tem desejado sempre ajudar e perdoar. De acordo com o padrão do homem, onde mais alguém poderia encontrar um cristão tão bom? Ainda assim, preciso lhe dizer que o que tem em si mesmo são apenas "coisas". Você tem que compreender, diante de Deus, que a experiência espiritual genuína não está em "coisas", mas no Senhor Jesus Cristo. Não é o que tem, nem o que pode fazer, nem ainda o que pode obter, mas somente o que Cristo é. A não ser que Ele se torne isso em sua vida, nada mais é de qualquer valor espiritual. No mundo espiritual, nada há senão Cristo, uma vez que Ele é o tudo de Deus.

Watchman Nee

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Imagine um caramujo erudito

De onde vem essa predisposição das pessoas de achar que Deus possa ser tudo, menos o Deus concreto, vivo, desejoso e atuante da teologia cristã? Acho que a razão é a seguinte. Vamos imaginar um caramujo totalmente erudito, um verdadeiro guru entre os caramujos, que (em uma visão arrebatadora) consegue ver, ainda que de relance, o que é um ser humano. Na tentativa de transmitir suas visões aos seus discípulos, os quais já têm seus próprios conceitos sobre o assunto (ainda que menos informados do que ele), ele terá que usar muitas negações. Terá que lhes dizer que nenhum ser humano vive em uma concha; que não vive como um molusco, grudado em uma pedra; que não vive rodeado de água etc. E os discípulos que tiverem alguma visão, certamente, acabarão captando a idéia do que seja o ser humano. O problema é que chegam então os caramujos intelectuais, eruditos, que escrevem histórias da filosofia e dão palestras sobre religiões comparadas, mas que nunca tiveram visão por si mesmos. Tudo o que eles conseguem extrair das palavras proféticas do caramujo são apenas os aspectos negativos, tudo isso sem o corretivo de um olhar positivo. Eles constroem, assim, uma imagem do homem como se fosse uma espécie de gelatina amorfa (ela não possui concha), que não existe em um lugar específico (muito menos grudada em alguma pedra), e que jamais se alimenta (não há ondas fazendo o alimento chegar até ela). E, fiéis à sua reverência tradicional pelo homem, eles concluem que ser uma gelatina subnutrida, que vive num vácuo sem dimensões, seja o modo supremo de existência. Assim, rejeitam como grotesca, materialista e supersticiosa toda doutrina que atribua ao homem uma forma, uma estrutura e um sistema orgânico definidos.

C.S. Lewis – Milagres

sábado, 26 de janeiro de 2008

Por que pecaste?

“Um rei tinha um lindo pomar com maravilhosas árvores frutíferas. Para que ninguém pudesse furtar as belas frutas, colocou dois guardas, um coxo e um cego, tornando-os responsáveis por qualquer roubo. Um belo dia, o coxo disse ao cego: Que linda fruta temos nós na nossa frente; por que não devemos deliciar-nos com ela? Respondeu o cego: E por que não? Traga-me uma. Impossível, replicou o coxo; você não vê que, como coxo, não posso subir na árvore? E eu – suspira o cego – ainda menos posso fazer algo, pois não vejo nada. Ambos os guardas começaram a pensar na melhor maneira de concretizar o plano de ação. E encontraram uma solução. O coxo montou em cima do cego, alcançaram as árvores que tinham em mira, arrancaram quanto lhes deu vontade, encheram ainda os bolsos e cestos, voltando depois cada um para o seu lugar, como se nada de extraordinário tivesse acontecido. Dias depois o rei apareceu inesperadamente e reparou o acontecido. O que fizeram com a fruta desta e daquela árvore? – indagou furioso. Majestade – começa o cego a desculpar-se assustadíssimo – serei eu, que não vejo nada, o culpado? Poderei eu – o completamente aleijado – ter feito isto? Suplicou o coxo. Eu não posso me mexer do lugar! Que fez o rei? Montou o coxo em cima do cego e exclamou: Eis a maneira como vocês dois praticaram o roubo.”

Depois da morte, quando o homem se apresenta perante o tribunal Divino, perguntarão à Neshamá (alma): Por que pecaste? E ela responderá: Criador do Universo, não fui eu que pequei, mas sim o meu corpo (Guf) e a prova é que mal me livrei dele, abandonei a terra, voando agora nestas esferas limpas e puras, como um passarinho inocente. Então o júri celestial dirigirá a pergunta ao corpo: E tu, por que pecaste? Eu? – responderá o corpo. – Acaso tenho eu forças para pecar? Ela, a alma, é a instigadora das minhas transgressões; pois vede, ilustres juízes, mal a alma me abandonou, estou completamente paralisado, um cadáver morto, como uma pedra. Que fará então Deus? Colocará a alma dentro do corpo e ambos serão julgados. (MD)

Torá, A Lei de Moisés, págs 294-295.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Bem-aventurado o que confia no Senhor

Quem quiser de Deus ter a coroa,
Passará por mais tribulação;
Às alturas santas ninguém voa,
Sem as asas da humilhação;
O Senhor tem dado aos Seus queridos,
Parte do Seu glorioso ser;
Quem no coração for mais ferido,
Mais daquela glória há de ter.

Harpa Cristã (Hino 126)
Bem-aventurança do crente (3ª estrofe)

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Abra meus olhos

"E orou Eliseu e disse: Senhor, peço-te que lhe abras os olhos, para que veja". 2 Reis 6:17

Essa é a oração que precisamos fazer por nós e pelos outros: "Senhor, pedimos-te que nos abras os olhos, para que possamos ver"; Pois o mundo ao nosso redor, bem como ao redor do profeta, está cheio de cavalos e carruagens divinas, esperando para nos carregar para lugares de vitórias e glórias. E, quando nossos olhos são assim abertos, vemos em todos os eventos da vida, grandes ou pequenos, alegres ou tristes, uma "carruagem" para nossas almas. Tudo o que nos acontece, transforma-se numa carruagem no momento em que o tratamos como tal. Por outro lado, até a menor das provações pode ser um fardo pesadíssimo, esmagando-nos e levando-nos à aflição e ao desespero, se a considerarmos como tal. Tudo depende, não daquilo que representam as circunstâncias, mas do modo como as encaramos. Se nos colocamos sob elas, deixando-as passar sobre nós e esmagar-nos, passam a ser fardos, mas se as escalamos, as transformamos em carros de vitória. E, se as obrigamos a transportar-nos triunfantes, para a frente e para cima, elas são realmente carruagens divinas.

Smith (17 de janeiro).

D. L. Moody - Pensamentos para horas tranquilas.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Já pensou dar de cara com ele?

É sempre chocante encontrar vida quando pensamos estar sós. “Venha ver!”, gritamos, “está vivo”. É exatamente nesse ponto que muitos recuam – eu teria feito o mesmo se pudesse – e deixam de buscar o cristianismo. Acreditar em um “Deus impessoal” – tudo bem. Em um Deus subjetivo, fonte de toda a beleza, verdade e bondade, que vive na mente das pessoas – melhor ainda. Em alguma energia gerada pela interação entre as pessoas, em algum poder avassalador que podemos deixar fluir – o ideal. Mas sentir o próprio Deus, vivo, puxando do outro lado da corda, aproximando-se em uma velocidade infinita, o caçador, rei, marido – é outra coisa. Há um momento em que as crianças que estão brincando de polícia e ladrão, de repente, ficam quietas e uma sussurra no ouvido da outra: “Você ouviu aqueles passos no corredor?” Chega uma hora em que as pessoas que ficam brincando com a religião (“a famosa busca do homem por Deus”), de repente, voltam atrás: “Já pensou se nós o encontrássemos mesmo? Não é essa a nossa intenção! E, o pior de tudo, já pensou se ele nos achasse?”

C.S. Lewis
[Milagres]

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Con quien hablo?

31 de dezembro. Almoço.
Meu primo liga para a casa de uma tia intentando falar com uma prima que acabara de chegar da Argentina. Minha tia, crente que só, atende. Segue a pérola:

- Hola, con quien hablo?

- Aqui não tem diabo não, aqui só tem Jesus!

sábado, 12 de janeiro de 2008

CompartiLendo

Os Produtos do Mercador

O colega Marcelo Oliveira escreveu um livro com o título acima, sobre o Cântico dos Cânticos, e concedeu uma entrevista ao ilustre Dr. Jorge Pinheiro sobre a obra.

Como o Cântico dos Cânticos é um livro geralmente não muito bem estudado, vale conferir.

Para ler a entrevista, vá até o site da Bíblia World Net e depois na "Sala da Redação" e finalmente "Os Produtos de Cântico dos Cânticos".

Evolução: racionalidade versus acaso

Escrito pelo Dr. Gerald Schroeder e acessível aqui.

Quem leu o Argumento do Design do Peter Kreeft, deverá gostar.

Jesus é mesmo o Messias?

Em seu artigo Será Yeshua (Jesus) o Messias?, o autor Tiago Murillo apresenta argumentos contundentes, com fulcro nas Escrituras Hebraicas e no Talmud, sobre a messianidade de Jesus.

Altamente recomendado.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Os Relatos do Evangelho são Confiáveis?

God in the Dock (Deus no Banco dos Réus)
C.S. Lewis

Outro ponto é que naquela visão você teria que considerar os relatos do homem como sendo mitos. Agora, sendo um historiador literal, estou perfeitamente convencido que o evangelho possa ser qualquer coisa, mas jamais um mito. Tenho lido sobre vários tipos de mitos e estou absolutamente certo de que o evangelho não é algo desse tipo. Ele não é artístico o suficiente para ser considerado um mito. A partir de uma visão imaginativa, ele seria desajeitado, não funcionando muito bem.

A maior parte da vida de Jesus nos é desconhecida assim como a vida de qualquer um daquela época. Nenhuma pessoa conseguiu criar um mito que seria dessa forma. Exceto partes de diálogos Platônicos, não há registros de conversas que conheça na literatura antiga como a encontrada nos evangelhos. Não há nada, ainda que na literatura moderna, até cerca de mil anos atrás, quando o romance moderno surgiu.

Na história da mulher pega em adultério, vemos que Cristo se inclinou e rabiscou o chão com Seu dedo. Nada provém disso. Ninguém jamais baseou alguma doutrina nesse trecho. E a arte de inventar pequenos detalhes irrelevantes para fazer uma cena imaginária mais convincente é puramente arte moderna. Certamente a única explicação dessa passagem é que esse fato realmente aconteceu. O autor o relatou simplesmente porque o viu acontecer.

Tradução: Jair Kunzler

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Eis que as trevas cobrem a terra

Apesar das palavras deste artigo terem sido proferidas há mais de 50 anos atrás, parecem descrever com precisão a situação espiritual dos nossos dias!

A luta hoje parece se tornar mais pesada dia a dia, como se o único alvo dos ataques de Satanás fosse nós, os crentes. Por isso, na era atual, o problema que existe é se você e eu podemos perseverar até a última meia hora. "[Satanás] Magoará os santos do Altíssimo" (Dn 7.25). Magoar tem aí o sentido de "desgastar", consumir devagar. É muito mais difícil reconhecer Satanás como aquele que desgasta os santos do que um Satanás que ruge como um leão. E a sua obra de consumir lentamente os santos já começou.

Sempre que vou à Montanha Kuling, caminho ao longo da correnteza que há ali. Freqüentemente vejo rochas enormes, mas que são côncavas no meio como bacias de tomar banho. Isto acontece por causa das muitas pedrinhas que diariamente as desgastam. Do mesmo modo Satanás trata os filhos de Deus. Em lugar de matá-los de um só golpe, tenta desgastar os santos, dia a dia, de modo que sem que percebam acabam gravemente feridos depois de algum tempo.

Os olhos do Senhor estão sobre nós, portanto não temamos o sofrimento. Se acontecer de nós nos desviarmos com medo do sofrimento, todos os nossos sofrimentos do passado terão sido em vão. Uma pessoa profundamente espiritual escreveu certa vez:
Quando lemos 2 Tessalonicenses 2.3 e 2 Timóteo 3.1-13, ficamos sabendo que antes do dia da volta do Senhor haverá apostasia e dias perigosos quando a maldade e a mentira aumentarão grandemente. Tal apostasia não se refere à educação, gigantescas reuniões, pastores capazes, catedrais maravilhosas e progresso mental e físico. Relaciona-se com a fé e o reconhecimento do poder de Deus. Aponta para igrejas renomadas que se inclinam para a chamada Alta Crítica (na verdade não passa de incredulidade), e negam as obras sobrenaturais de Deus, tais como a regeneração, a santidade, orações atendidas e a revelação do Espírito Santo.

Antes da vinda do Senhor, haverá muita fraude e muito erro; e, se fosse possível, até os escolhidos seriam enganados. A "forma da piedade" será aumentada. A fé será diminuída por causa de credos falsos, engendrados por Satanás, e também o amor pelo mundo e a negação da palavra de Deus. Um irmão disse bem: tais obras satânicas produzirão um efeito intangível que nos envolverão como o ar. Haverá uma forma de piedade exterior, mas por dentro estará cheia de maus espíritos e da melancolia do inferno. Esses espíritos malignos farão o máximo para desviar e oprimir os filhos de Deus. Atacarão nosso corpo, diminuirão nossa vontade e embrutecerão nossa mente. Toda espécie de sensações e provações estranhas nos sobrevirão, fazendo-nos perder o desejo de buscar a Deus e a força de fazê-lo, cansando nosso espírito, embotando nossa mente e tornando-a entorpecida e, ao mesmo tempo, fazendo-nos estranhamente amar os prazeres e costumes do mundo como também cobiçar as coisas proibidas por Deus. Perderemos a liberdade e o poder de pregar; não poderemos nos concentrar para ouvir as mensagens; e seremos incapazes de nos ajoelhar para orar dedicadamente por algum período mais longo. Tais trevas e tal atmosfera deverão ser enfrentadas com resolução. Sem dúvida Satanás procura obscurecer nossa mente e vontade com uma espécie de poder inconcebível para que se torne extremamente difícil andar com Deus e muito fácil viver de acordo com a carne. Acharemos que é difícil servir a Deus fielmente e orar com perseverança, como se tudo dentro de nós se levantasse para impedir-nos de seguir o Senhor Jesus até o fim e fazer-nos concordar com o mundo.

A atmosfera à nossa volta nos obrigará a trair a Deus e a desistir de nossas sinceras orações. Embotará nossa sensibilidade espiritual para que não vejamos as realidades celestiais ou a gloriosa presença do Senhor. Assim facilmente negligenciaremos a comunhão com Deus e descobriremos que é difícil manter comunhão com ele.

Já estamos sentindo o começo destas influências. A concupiscência do mundo tece sua rede extensa de muitas maneiras à volta dos crentes. Torna-se cada vez mais apertada e mais forte com o passar do tempo. Muitas coisas que nas gerações passadas eram inimagináveis agora estão sendo praticadas sem restrição. Muitos lugares de adoração não só resistem à entrada de coisas espirituais, bloqueando reavivamentos, mas também introduzem toda espécie de festejos e coisas duvidosas.

Falando de um modo geral, em todo o mundo, a diminuição da fé e o desenvolvimento da apostasia são evidentes. Naturalmente, reconhecemos que ainda há muitos lugares abençoados por Deus. Mas examinando a situação da igreja no mundo inteiro como um todo, não deixa de apresentar um quadro digno de dó.Tendo visto estas coisas, não podemos deixar de gritar à igreja de Deus que se levante, que desperte, que retorne à comunhão com Deus e que agrade ao Senhor no tempo que ainda resta. Estejamos preparados para comparecer diante do tribunal de Cristo e apresentar o nosso caso.

Watchman Nee

Artigo extraído do site: O Discípulo

sábado, 5 de janeiro de 2008

Bulverismo, ou os fundamentos do pensamento do século XX - Final

Na segunda parte deste artigo, retirado do site Mídia Sem Máscara, CS Lewis argumenta que até que o bulverismo seja vencido, a razão não pode ter nenhum papel nas questões humanas.

"Vejo o bulverismo em funcionamento em todo argumento político. Os capitalistas devem ser maus economistas, pois sabemos porque eles querem o capitalismo. Igualmente, os comunistas devem ser maus economistas, pois sabemos porque eles querem o comunismo. Assim, há bulveristas de ambos os lados. Na realidade, ou as doutrinas dos capitalistas são falsas, ou as doutrinas dos comunistas são falsas ou ambas são falsas; mas você só pode descobrir os erros e os acertos por meio do raciocínio – nunca por meio de grosserias a respeito da psicologia do seu oponente.

Até que o bulverismo seja vencido, a razão não pode ter nenhum papel nas questões humanas. Cada lado agarra-se ao bulverismo como uma arma contra o outro; entre os dois, a própria razão é desacreditada. E por que não seria? Seria fácil, em resposta, mostrar o estado presente do mundo mas a resposta real é ainda mais imediata. As forças que desacreditam a razão, elas próprias dependem da razão. Você raciocina mesmo quando bulverisa. Você está tentando provar que todas as provas são inválidas. Se você falhar, você falhou. Se você tiver sucesso, então você falha ainda mais – pois a prova de que todas as provas são inválidas deve ser, ela própria, inválida.

A alternativa seria ou uma completa idiotice auto-contraditória ou então, uma crença tenaz no nosso poder de raciocínio, mantido a unhas e dentes diante de toda evidência que os bulveristas pudessem trazer de uma ‘distorção’ neste ou naquele raciocínio humano. Estou pronto a admitir, se você quiser, que essa crença tenaz tem algo de transcendental ou místico. E daí? Você preferiria ser um lunático ao invés de um místico?

Assim, vemos que há justificativa para nos atermos à crença na Razão. Mas, isso pode ser feito sem o teísmo? A expressão “Eu conheço” não implica que Deus existe? Tudo que conheço é uma inferência da sensação (exceto o momento presente). Todo o nosso conhecimento do universo, além de nossa experiência imediata, depende de inferências dessas experiências. Se nossas inferências não nos dão uma genuína apreensão da realidade, então nada podemos conhecer. Uma teoria não pode ser aceita se não permite que nosso raciocínio nos leve a uma genuína apreensão, nem tampouco se o nosso conhecimento não for explicável em termos dessa teoria.

Mas, nossos pensamentos só podem ser aceitos como apreensões genuínas sob certas circunstâncias. Todas as crenças têm causas, mas uma distinção há de ser feita entre (1) as causas ordinárias e (2) um tipo especial de causa chamada “uma razão”. Causas são eventos inconscientes que podem produzir outros resultados além de crenças. Razões surgem de axiomas e inferências e afetam nossas crenças. O bulverismo tenta mostrar que outro homem tem causas e não razões e que nós temos razões e não causas. Uma crença que pode ser explicada inteiramente em termos de causas é inútil. Esse princípio não deve ser abandonado quando consideramos as crenças que são os fundamentos de outras. Nosso conhecimento depende de nossa certeza sobre axiomas e inferências. Se esses são resultados de causas, então não há possibilidade de conhecimento. Ou não podemos conhecer nada ou o pensamento tem apenas razões e não causas.

[O resto deste ensaio, que foi originalmente lido no Clube Socrático antes da publicação no Socratic Digest, continua na forma de notas tomadas pelo secretário do clube. Isso explica porque ele não é todo na primeira pessoa, como o texto até aqui.]

Pode-se argumentar, continuou o sr. Lewis, que a razão evoluiu por seleção natural e que somente os métodos de raciocínio que se provaram úteis sobreviveram. Mas a teoria depende de uma inferência que ligue a utilidade à verdade, cuja validade deve ser suposta. Todas as tentativas de tratar o pensamento como um evento natural envolvem a falácia de excluir o pensamento do indivíduo que faz a tentativa.

Admite-se que a mente é afetada por eventos físicos; um aparelho eletrônico é influenciado por eventos atmosféricos, mas não os causa – não notaremos isso se pensarmos o contrário. Podemos relacionar eventos naturais uns com os outros numa seqüência contínua no espaço-tempo. Mas o pensamento não tem outro pai a não ser o pensamento. Ele é condicionado, sem dúvida, mas não tem causa. Meu conhecimento de que estou ansioso é gerado por inferência.

O mesmo argumento aplica-se aos nossos valores, que são afetados por fatores sociais, mas se estes causam aqueles, nunca poderemos saber se eles (os valores) são certos. Pode-se rejeitar a moralidade como uma ilusão, mas o indivíduo que faz isso o faz freqüentemente excetuando seu próprio motivo ético tacitamente: por exemplo, no caso da tentativa de libertar a moralidade da superstição e de difundir a ilustração.

Nem a Vontade nem a Razão são produtos da Natureza. Portanto, ou eu sou auto-existente (uma crença que ninguém pode aceitar) ou eu sou dependente de algum Pensamento ou Vontade que é auto-existente. Tal razão e bondade que podemos atingir devem derivar de uma Razão e uma Bondade auto-existentes fora de nós, na realidade, uma Razão e uma Bondade Sobrenaturais.

O sr. Lewis continuou dizendo que é comum se argumentar que a existência do Sobrenatural é excessivamente importante para ser discernível apenas por argumentos abstratos e que, dessa forma, apenas alguns poucos desocupados podem fazê-lo. Mas, em todas as outras eras o homem comum tem aceitado as descobertas dos místicos e dos filósofos para a formulação de sua crença inicial no Sobrenatural. Atualmente, o homem é forçado, ele próprio, a carregar aquele peso. Ou a humanidade cometeu um terrível erro em rejeitar a autoridade, ou o poder(es) que controla(m) seu destino está (ão) fazendo um ousado experimento, e estamos todos no caminho de nos tornarmos sábios. Uma sociedade que consista apenas de homens comuns está fadada ao desastre. Se vamos sobreviver, devemos ou acreditar nos homens de visão ou escalar as alturas nós próprios.

Evidentemente então, algo além da Natureza existe. O homem está na linha limite entre o Natural e o Sobrenatural. Os eventos materiais não podem produzir atividade espiritual, mas esta pode ser responsável por muitas de nossas ações na Natureza. A Vontade e a Razão não podem depender de nada a não ser delas próprias, mas a Natureza pode depender da Vontade e da Razão ou, em outras palavras, Deus criou a Natureza.

A relação entre a Natureza e o Sobrenatural, que não é uma relação no espaço e no tempo, torna-se inteligível se o Sobrenatural tiver feito o Natural. Temos até uma idéia disso, pois conhecemos o poder da imaginação, apesar de não podermos criar nada novo, mas podemos rearranjar o material absorvido pelos sentidos. Não é inconcebível que o universo tenha sido criado por uma Imaginação forte o suficiente para impor os fenômenos em nossas mentes.

Sugere-se, o sr. Lewis conclui, que nossas idéias do fazer e do causar são inteiramente derivadas de nossa experiência da vontade. A conclusão que usualmente se tira é que não há o fazer ou o causar, apenas “projeção”. Mas, “projeção” é em si uma forma de causar e é mais razoável supor que a Vontade é a única causa que conhecemos e que, portanto, a Vontade é a causa da Natureza.

Uma discussão se segue. Alguns pontos levantados:

Todo o raciocínio supõe a hipótese de que a inferência é válida. A inferência correta é auto-evidente.

“Relevante” (re-evidente) é um termo racional.

O universo não alega ser verdadeiro: ele apenas existe.

Conhecimento por revelação é mais conhecimento empírico do que racional.

Pergunta: Qual é o critério da verdade, se você distingue entre causa e razão?

Sr. Lewis: Um país montanhoso deve ter muitos mapas. Apenas um é verdadeiro, isto é, apenas um corresponde aos contornos reais. O mapa feito pela Razão alega ser o verdadeiro. Eu não poderia perceber o universo a menos que eu pudesse confiar em minha razão. Se não pudéssemos confiar na inferência não poderíamos conhecer nada, exceto nossa própria existência. A realidade física é uma inferência de nossas sensações.

Pergunta: Como um axioma pode ser mais auto-evidente do que um juízo baseado em evidência empírica?

[Este ensaio termina aqui, deixando essa questão sem resposta.]"

Texto originalmente publicado no livro God in the Dock
Tradução: Antonio Emílio Angueth de Araújo

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Bulverismo, ou os fundamentos do pensamento do século XX - I

A tradução deste artigo de autoria de CS. Lewis foi retirado do site Mídia Sem Máscara. O texto será postado em duas partes, para facilitar a leitura: uma hoje e outra ainda nesta semana. Lewis fala, em suma, que é necessário mostrar que um homem está errado antes de começar a explicar por que ele está errado.

"É desastrosa, como diz Emerson, a descoberta de que existimos. Quero dizer, é desastrosa quando, ao invés de atentarmos para a rosa, somos forçados a pensar em nós observando a rosa, com um certo tipo de mente e um certo tipo de olhos. É desastroso porque, se você não for muito cuidadoso, a cor da rosa acaba sendo atribuída ao nosso nervo ótico e seu perfume ao nosso nariz e, no final, não sobra nenhuma rosa. Os filósofos profissionais têm se preocupado com esse blackout universal por duzentos anos e o mundo não tem dado ouvido a eles. Mas, o mesmo desastre está agora acontecendo em um nível que todos nós podemos entender.

Descobrimos recentemente que nós “existimos” em dois novos sentidos. Os freudianos descobriram que existimos como feixes de complexos. Os marxistas descobriram que existimos como membros de alguma classe econômica. Antigamente, supunha-se que se uma coisa parecia obviamente verdadeira a cem homens, então ela era provavelmente verdadeira de fato. Hoje em dia, o freudiano dirá que temos de analisar os cem indivíduos: descobriremos que eles consideram Elizabeth I uma grande rainha porque todos eles têm um complexo materno. Seus pensamentos são psicologicamente deformados na fonte. E o marxista dirá que temos de examinar os interesses econômicos das cem pessoas: descobriremos que todos consideram a liberdade uma boa coisa porque eles são todos membros da burguesia cuja prosperidade cresce sob a política do laissez-faire. Seus pensamentos são “ideologicamente distorcidos” na fonte.

Ora, isso é obviamente muito engraçado; mas, nem sempre se nota que há um preço a pagar por isso. Há duas questões que devemos formular às pessoas que dizem tais coisas. A primeira é: todos os pensamentos são, então, distorcidos na fonte ou apenas alguns? A segunda é: a distorção invalida o pensamento – no sentido de torná-lo inútil – ou não?

Se eles disserem que todos os pensamentos são assim distorcidos, então, claramente, devemos lembrá-los que as teorias freudiana e marxista são sistemas de pensamento tanto quanto a teologia cristã e o idealismo filosófico. Todas essas teorias estão no mesmo barco em que nos encontramos e não podem nos tecer críticas desde o exterior. Eles serraram o galho em que estavam sentados. Se, por outro lado, eles disserem que a distorção não invalida necessariamente o pensamento deles, então ela também não invalida o nosso. Nesse caso, eles salvarão o próprio galho mas também salvarão o nosso.

O único caminho que eles podem realmente tomar é dizer que alguns pensamentos são distorcidos e outros não – o que tem a vantagem (se freudianos e marxistas considerarem isso uma vantagem) de ser o que todos os homens sãos sempre acreditaram. Mas, se é assim, devemos perguntar como se faz para descobrir quais são distorcidos e quais não são. Não adianta dizer que os distorcidos são aqueles que concordam como os desejos secretos do pensante. Algumas das coisas que eu desejo devem ser verdadeiras; é impossível organizar um universo que contradiz cada desejo de alguém, em todos os aspectos, o tempo todo. Suponha que, depois de fazer muita conta, eu imagino que tenho um grande saldo bancário. E suponha que você queira descobrir se minha crença é “wishful thinking”. Você não chegará a nenhuma conclusão apenas examinando minha condição psicológica. Sua única chance é sentar e rever meus cálculos. Quando isso acontecer, então, e somente então, você saberá se eu tenho aquele saldo ou não. Se você concluir que minha aritmética está certa, então qualquer quantidade de ilações sobre minha condição psicológica só será uma grande perda de tempo. Se você descobrir que meus cálculos estão errados, então pode ser relevante uma explicação psicológica sobre como eu pude ser tão ignorante em matemática, e a doutrina do desejo secreto se tornará importante – mas, somente depois de você ter feito a soma e descoberto, em bases puramente matemáticas, meu erro. Acontece o mesmo com todo o pensamento e com todos os sistemas de pensamento. Se você tenta descobrir qual está distorcido por meio de especulações sobre os desejos dos pensantes, você está meramente se enganando. Você deve primeiro descobrir, em bases puramente lógicas, qual deles de fato pode ser reduzido a argumentos. Depois, se você quiser continue e descubra as causas psicológicas do erro.

Em outras palavras, você deve mostrar que um homem está errado antes de começar a explicar porque ele está errado. O método moderno assume, sem discussão, que ele está errado e então distrai sua atenção disso (a única questão real) por meio de uma prolixa explicação de como ele se tornou tão tolo. No curso dos últimos quinze anos tenho descoberto que esse vício é tão comum que eu inventei um nome para ele. Eu o chamo Bulverismo. Algum dia eu vou escrever a biografia de seu inventor imaginário, Ezekiel Bulver, cujo destino foi determinado quando ele tinha 5 anos de idade e ouviu sua mãe dizer ao seu pai – que afirmava que a soma do comprimento dos dois lados de um triângulo era maior que o comprimento do terceiro – “Ah, você diz isso porque você é um homem”. “Naquele momento”, E. Bulver nos conta, “como um facho de luz, a grande verdade atingiu minha mente receptiva: a refutação não é uma parte necessária de um argumento. Suponha que seu oponente esteja errado e que, então, você explique o erro dele. O mundo estará a seus pés. Tente provar que ele está errado e o dinamismo nacional de nosso tempo lançará você contra a parede”. Foi assim que Bulver se tornou um dos construtores do Século XX.

Encontro os frutos de sua descoberta em todo o lugar. Assim, vejo minha religião rejeitada sob o argumento de que ‘o pároco de vida confortável tinha toda a razão de assegurar ao trabalhador do século XIX de que a pobreza seria recompensada num outro mundo’. Bem, sem dúvida ele tinha. Supondo que o cristianismo seja errado, posso ver muito bem que alguns ainda teriam um motivo para inculcar tal idéia. Vejo isso tão facilmente que posso, claro, inverter a coisa e dizer: ‘o homem moderno tem toda a razão para tentar convencer-se de que não há nenhuma sanção eterna por trás da moralidade que ele rejeita’. Pois, o bulverismo é um jogo verdadeiramente democrático no sentido de que todos podem jogá-lo o tempo todo e de que ele não trata injustamente a pequena e ofensiva minoria que o joga. Mas, claro está que ele não nos aproxima sequer um milímetro da conclusão a respeito da falsidade ou verdade do cristianismo. Essa questão permanece em aberto para ser discutida em bases muito diferentes – utilizando-se argumentos históricos e filosóficos. Qualquer que seja a decisão, os motivos impróprios da crença ou descrença permanecerão intocados."

Texto originalmente publicado no livro
God in the Dock

Tradução: Antonio Emílio Angueth de Araújo

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

O Sacrifício da Cruz

Leitura: "Salvou os outros, a Si mesmo não pode salvar-se" (Mt 27.42).


"Salvou os outros, a Si mesmo não pode salvar-se" (Mt 27.42). Esse foi o escárnio dirigido ao Cristo que morria, quando ficou pendurado em Sua cruz naquele "distante monte verde". Palavras de deboche, mas incorporando a própria essência da vida e morte do Filho de Deus, a própria essência dos tratos de Deus com o mundo - a própria essência do Calvário. "Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o Seu Filho unigênito". Para salvar os outros - pecadores, rebeldes, inimigos - o Pai não pode salvar a Si mesmo de enviar, do Seu seio, o Filho do Seu amor. Para salvar os outros, o Filho não pode salvar a Si mesmo, mas deve derramar Sua alma na morte e, assim, ver Sua semente e dividir o despojo com os poderosos (Is 53.12 - EC). Para salvar os outros, o Espírito Santo não pode salvar a Si mesmo da angústia, à semelhança da tristeza e angústia do Filho no Getsêmani, em Sua entrada no coração dos que uma vez afundaram-se no pecado e são freqüentemente obstinados e desobedientes aos clamores do Filho.

Salvou os outros, a Si mesmo não pode salvar-se. Essa expressão engloba, em poucas palavras, toda a história do caminho do Deus-Homem na terra; desse modo, Ele manifestou ao homem caído a expressa imagem ou caráter (conforme o grego, Hb 1.3) do Pai no céu. "Nisso se manifestou o amor de Deus em nós: em haver Deus enviado Seu Filho unigênito (...) para vivermos" (1 Jo 4.9). "Nisto conhecemos o amor: que Cristo deu a Sua vida por nós" (3.16). O caráter de Deus foi revelado em Seu Filho; a natureza divina foi manifestada Naquele que era a "expressão exata do Seu ser". Resumindo: salvar os outros é próprio de Deus, recusando-se salvar a Si mesmo.

Salvou os outros, a Si mesmo não pode salvar-se. Isso não significa que Ele não tivesse o poder e os recursos para salvar a Si mesmo. Pelo contrário, Ele tinha o poder, mas não iria usá-lo! Salvar os outros quando isso não custa nada a você é algo possível até para criaturas caídas. Mas salvar os outros e recusar-se a salvar a si mesmo quando você tem condições para fazê-lo é divino. Ele não pode salvar a Si mesmo porque é contrário à natureza divina salvar o ego à custa da perda dos outros.

A Si mesmo não pode salvar-se. Palavras impressionantes, pronunciadas como deboche e pelos lábios de pecadores que crucificaram o seu Salvador. Mesmo na tentação no deserto (Mt 4.1), essa lei da Sua vida foi manifestada; ali Ele não se alimentou, porque não podia alimentar a Si mesmo, mas mais tarde, alimentou os outros (14.13-21). Ele podia utilizar todo o poder da Divindade para abençoar os outros, para alimentar os outros, para salvar os outros; mas para Si mesmo, nada! Não usou os recursos divinos para salvar a Si mesmo num momento de fome aguda, para ter uma palavra menos de desprezo ou um golpe menos do açoite, e ser apenas golpeado com a mão. Assim devem ser os filhos de Deus conformados à imagem do Filho, para manifestar Seu caráter divino, como o Filho revelou a expressa imagem do Pai. "Salvou os outros, a Si mesmo não pode salvar-se" é a lei da vida de Jesus e deve ser a lei da vida de cada seguidor do Cordeiro.

Ter o poder para salvar a si mesmo e recusar-se a usá-lo, porque, se o usasse, os outros não poderiam ser salvos, é a vida de Jesus manifestada naqueles que Ele redimiu. Derramar sua vida pelos outros que o rejeitam e o julgam incorretamente, quando você não precisaria fazê-lo: isto é o Calvário! Ter o poder para salvar a você mesmo e não usá-lo, por significar perda para os outros: isto é o Calvário! Ser usado para libertar almas do poder de Satanás e, depois, colocar-se, como Cristo o fez, à aparente mercê da "vossa hora e o poder das trevas" (Lc 22.53): isso é verdadeiramente o Calvário!

Ó filho de Deus, Ele salvou os outros, mas a Si mesmo não pode salvar! Este deve ser o caminho para você em cada momento de tensão dolorida e tempestade para os seguidores do Cordeiro. Deus tem usado você para libertar os outros, e talvez você esteja desejando saber por que você mesmo não é libertado das lutas por fora e temores por dentro (2 Co 7.5) que estão assediando sua própria vida. Outros vêm a você em extrema necessidade, e, com seu próprio coração partido, você é solicitado a dar do seu próprio vazio e com a perda daquilo que parece ser sua própria necessidade. Você é solicitado a clamar pela vitória pelos outros que estão em angústia, quando você mesmo parece estar em angústia muito maior. No Calvário foi assim! Aquele que havia libertado outros do poder de Satanás foi entregue, como vimos, à fúria total do poder das trevas. Aquele que havia realizado obras poderosas de Deus pelos outros, jaz em impotência e fraqueza nas mãos dos homens. Sim, isso é o Calvário. Vida, poder, bênção e libertação para os outros, e nada para você mesmo, a não ser permanecer na vontade de Deus e aceitar das mãos do Pai tudo o que for do Seu agrado permitir que chegue a você.

Salvou os outros - todos os recursos em Deus e o poder de Deus para os outros! A Si mesmo não pode salvar-se - impotência, vacuidade, sofrimento, conflito e morte para Si mesmo. Essa foi a marca registrada da mais elevada manifestação do espírito do Cordeiro vista nos heróis da fé, conforme o registro de Hebreus 11; e entre esses heróis da fé, que alcançaram o lugar mais elevado nesse rol de honra, estavam mulheres que foram abatidas à morte, não aceitando o livramento, a fim de que pudessem alcançar uma melhor ressurreição (v. 35) . Sim, essa é a marca registrada mais elevada do espírito do Cordeiro. Subjugar reinos, obter promessas, fechar a boca dos leões, extinguir a violência do fogo, escapar ao fio da espada, tornar-se poderoso na guerra (v. 34) - tudo como resultado de fé num Deus Onipotente -: isso é poder; mas ser torturado e não aceitar ser resgatado (v. 35) - isso é o Calvário. A escolha voluntária para sofrer e morrer, ao invés de salvar a si mesmo, é algo mais elevado do que a fé para conquistar e subjugar.

E, se não estamos enganados, esse é o caminho mais elevado colocado diante de todos aqueles que avançam em direção ao alvo da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus no tempo presente. "Nova evidência de que Deus está operando poderosamente para levantar e estabelecer um povo realmente conformado à morte de Cristo veio a mim esta manhã - um assunto muito mais sério e poderoso do que a concessão de dons", escreveu um ministro de grande experiência e em condições de ver e conhecer de forma especial a tendência da obra do Espírito. Sim, Deus "está operando poderosamente em minha direção", dirão muitas almas profundamente provadas, quando pensam em seu próprio caso e nos caminhos estranhos e especiais nos quais estão sendo estranhamente conduzidas, a fim de poder conhecer o caminho da cruz e entrar no espírito do Cordeiro.

Dois caminhos parecem estar claramente abertos diante da Igreja de Deus, com uma escolha para cada membro do Corpo de Cristo, que tem resultados eternos. Há a conformidade ao Cordeiro, que já mencionamos antes, em relação à qual necessitamos de visão divina para discernir sua beleza e glória celestiais. Por outro lado, o caminho de salvar a nós mesmos do sentido pleno de tudo o que significa seguir o Cordeiro na terra, com a conseqüente perda da glória de participar do trono do Cordeiro. Porque está escrito: "Se com Ele sofremos, com Ele reinaremos" (2 Tm 2.12 - BJ); "se com Ele sofremos, com Ele também seremos glorificados" (Rm 8.17). O sofrimento de Cristo foi totalmente voluntário, pois Ele disse: "Eu dou a minha vida (...) Ninguém a tira de mim; pelo contrário, eu espontaneamente a dou" (Jo 10.17, 18). E no caminho da conformidade à Sua morte, muitos que escolheram seguir o Cordeiro onde quer que Ele vá (Ap 14.4), encontram-se no caminho da cruz, o que poderia ser evitado, se quisessem! Eles poderiam aceitar o livramento e salvar a si mesmos, mas perderiam a superior ressurreição. Isso é, na verdade, o espírito do Cordeiro morto, suprido pela graça de Deus a pecadores redimidos. Tudo o que é da terra, nas vozes dos amigos e do mundo, e da própria vida deles clama: "Salva a Ti mesmo e a nós". Mas o Espírito de Cristo no interior deles os conduz no caminho do Cordeiro, pois, como Ele, não podem salvar a si mesmos. Ver um caminho de escape do sofrimento e, por sua própria livre escolha, decidir recusar-se a entrar por ele, por significar a salvação deles mesmos: isto é digno de reconhecimento diante de Deus, pois é o caminho mais próximo da semelhança com Aquele a respeito do Qual foi dito em tom de escárnio: "Salvou os outros, a Si mesmo não pode salvar-se."

(Jessie Penn-Lewis, in A Cruz: O Caminho Para o Reino,
Editora dos Clássicos, Direitos gentilmente cedidos pelos editores).

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Meteorito

Entre colinas, um meteorito,
Com musgo a cobri-lo, imenso se guarda,
Os ventos e as chuvas com toques benditos
Da rocha os contornos, abrandam com calma

Assim pode a Terra tão fácil sorver
As cinzas das chamas do véu sideral,
E pode a visita lunar envolver,
Como ao nativo de um feudo real.

Nem é de estranhar que tais caminhantes,
No seio da Terra encontrem seu lar,
Pois cada partícula nela constante,
Primeiro surgiu do espaço estelar.

Tudo o que é Terra já foi céu um dia;
Do sol do passado a Terra surgiu,
Ou de alguma estrela talvez erradia,
Que, perto demais do Sol, explodiu.

Se gotas tardias então inda caem,
Do espaço celeste neste chão criador
É que ainda opera com força do além,
A alegre torrente de chuva e esplendor

C.S. Lewis

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